Lembranças das aulas de Português

Esse é um dos textos que marcou minha infância. Acho que eu estava na 3a. ou 4a. série. E foi assim que eu conheci o Carlos Drumond de Andrade. Não a pessoa. Opá, isso é uma metonímia!
Talvez ele seja um dos grandes culpados pela minha paixão pelas aulas de Língua Portuguesa. Eu sei que a paixão final culpa da professora da 7a. série (ai, preciso lembrar o nome dela!!) que me ensinou que UM XURI NÃO DÁ LÃ PS DITONGO.  Queria que ela soubesse que plantou a sementinha da paixão pela nossa língua no coração de uma manceba. Ah! Manceba era como minha professora Olga Rocha, da 8a. série, me chamava. Ok, confesso. Ela também era minha professora de Língua Portuguesa.  Mas o que posso fazer? Eu amo os mistérios dessa língua extremamente complexa. Não todos os mistérios, só os mais legais. Foi a professora Olga que também me cativou com a paixão pelas figuras de linguagem, ou pelo menos, a distinguí-las. Com ela também aprendi a fazer ênclises, próclises e mesóclises. Aprendi o que é saudade: é o único verbete que existe para descrever este sentimento forte, gostoso, doloroso e lindo e que é exclusivo da Língua Portuguesa.

Well, outrora volto a relatar minhas experiências com o Bechara, Faraco e Moura, Savioli, e com o Livro de Talita.
Vamos ao texto.

    – Quero lasanha.
Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
– Meu bem, venha cá.
– Quero lasanha.
– Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.
– Não, já escolhi. Lasanha.
Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
– Vou querer lasanha.
– Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
– Gosto, mas quero lasanha.
– Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?
– Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
– Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
– Você come o camarão e eu como lasanha.
O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
– Quero lasanha.
O pai corrigiu:
– Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada.
A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas interogações apenas se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
– Moço, tem lasanha?
– Perfeitamente, senhorita.
O pai, no contra-ataque:
– O senhor providenciou a fritada?
– Já sim, doutor.
– De camarões bem grandes?
– Daqueles legais, doutor.
– Bem, então me vê um chinite, e para ela… O que é que você quer, meu anjo?
– Uma lasanha.
– Traz um suco de laranja para ela.
Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para a surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.
– Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado – Sábado que vem, a gente repete… Combinado?
– Agora a lasanha, não é, papai?
– Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer, mesmo?
– Eu e você, tá?
– Meu amor, eu…
– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

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