Uns adaptam-se, outros…

Não é a primeira vez que alguém se aproxima de nós na rua para puxar assunto. São brasileiros que se sentem reconfortados em nos ouvir falar (por mais que já estejamos habituados a alguns verbetes e expressões, falamos como brasileiros) e puxam assunto. Além disso, quando vamos a alguma loja, restaurante ou mercado e há algum brasileiro trabalhando, eles puxam assunto.

Sinceramente eu acho estranho. Não me queixo, pelo contrário, acho legal porque vocês sabem que vivo aqui só com meu marido e ainda não trabalho, então não tenho muito contato com pessoas e é sempre bom falar com mais alguém, descontrair, mas o que é estranho é que as pessoas se abrem de uma forma como se nos conhecessem há muito tempo. Ninguém fala de intimidades, mas é tal como um desabafo.

Eu sou meio bicho do mato e não sou muito de falar com estranhos (papai e mamãe me ensinaram isso desde cedo), mas fui educada a responder quando falam comigo. Acho que isso deixa as pessoas mais confortáveis ainda pra serem sinceras para “abrir o coração”.

Primeiro foi um funcionário do SuperCor, que nos ouviu nos corredores, procurando massa de pastel. Ele se aproximou e disse que aquela loja era pequena (pequeníssima, deve ter uns 800m²), mas se tivesse algum produto que estivéssemos procurando ali e não tivesse, que falássemos no caixa, que a pessoa tomaria nota e providenciaria o produto, além disso eu seria avisada quando o produto chegasse.
Até aí eu diria que foi apenas pró-atividade de um funcionário, mas depois veio a pergunta: estão aqui há muito tempo?
E nós dissemos que estamos cá há alguns meses, e o assunto surge. “Estão gostando? Pretende ficar cá?”
Daí começa o bate-papo. Quando perguntamos “e você?”… temos a resposta “já gostei, mas estou aqui há 7 anos e vou juntar mais um dinheiro e daqui a uns dois anos eu volto”. Ele era do Espírito Santo.

Dias depois, no mesmo mercado, no departamento de frios e embutidos, fomos comprar queijo e pedimos para fatiar. O rapaz nos atendia agora falava um sotaque português perfeito. Quando percebeu que nós dois também viemos do Brasil, desfez o sotaque luso e encarnou um “mineirês”, apesar de nos dizer que era gaúcho. Então veio a fatídica pergunta “e vivem aqui há muito tempo? estão gostando? vão voltar pro Brasil quando?”

Nossa resposta é sempre a mesma: “Estamos cá há alguns meses, estamos amando viver em Lisboa, e não pretendemos voltar nunca mais, no máximo a passeio depois de já conhecermos alguns lugares aqui na Europa”.
Então vem a revelação “o quê? eu não aguento mais isso aqui! vou só juntar mais um dinheiro e vou voltar”.

Outro dia, na estação de comboios, enquanto esperávamos sentados no banquinho o Santa Apolónia, uma senhora vinha em nossa direção, e me ajeitei no banco para que ela pudesse sentar também. Ela disse que ficássemos à vontade porque tinha muito espaço. Eu respondi que tudo bem, estávamos confortáveis e tinha espaço para todos. Ela era brasileira e percebeu que nós também. E comentou do calor (estava com um sol lindo e o céu super azul naquele dia). Eu comentei de volta “é verdade, esquentou um bocado essa última semana”.
Em seguida um jovem atravessou as plataformas pelos trilhos, em vez de usar a passarela sobre a estação. E ela teceu outro comentário “essa juventude… só fazem disparates”. Eu concordei com o comentário e nem tive tempo de dizer mais nada. Ela começou a se queixar de tudo. Dos jovens, dos brasileiros que vêm pra cá pra fazer besteira, da zona que ela mora, dos portugueses que são fechados demais, que não dá pra confiar em ninguém, que só quer fazer dinheiro e que ano que vem ela vai embora. Ela morava em Goiás. O comboio chegou e eu a chamei para sentar-se conosco (os bancos são duplos, mas sempre um de frente pro outro). E ela desabafou. Disse que a filha dela faz faculdade aqui e assim que acabar, vão-se embora, porque aqui ela ganha muito dinheiro cuidando de idosos, e aqui ela ganha em dois meses o que levaria um ano pra ganhar no Brasil. Não falamos de valores, mas foi essa a comparação que a senhora fez.

Certo dia, meu marido foi à baixa e descendo a Avenida da Liberdade um rapaz puxou assunto com ele. Era um gaúcho, que estava há uma semana aqui em Lisboa, e viu meu marido engravatado e perguntou “você é brasileiro, né?”. Meu marido achou engraçado, porque ele não tinha dado um piu e o camarada descobriu que ele é conterrâneo. Respondeu que sim, e então o rapaz puxou assunto. Disse que estava procurando emprego, se tinha alguma dica, que queria trazer a família pra cá depois, e perguntou se ele estava gostando de viver aqui. A resposta é sempre a mesma “estou cá há alguns meses, e estou amando viver aqui, não pretendo voltar”.
Mas esse gaúcho fez uma pergunta diferente: “como são as pessoas aqui?”

Interessante o que ele perguntou… porque na verdade os portugueses, em sua maioria, são muito reservados. Acho que essa é uma característica de países frios. Quanto mais frio o país, mais frias são as pessoas.
Quando é apresentado a alguém, não existe o tal “três beijinhos pra casar”, e muito mal um aperto de mãos. Fica no cumprimento a distância mesmo “olá, como vai?” ou apenas “boa tarde”.

Tem uma loja de artigos brasileiros perto daqui de casa, cuja dona é uma bahiana (minha mãe é bahiana, assim como todas as minhas tias e eu tô bem habituada ao jeito do sul nordestino) e todas as vezes que vou lá ela queixa-se demais de Portugal. Fala mal das pessoas, diz que nada funciona, não confia nos médicos, diz que as pessoas nos mercados e restaurantes são mal educadas, e não vê a hora de voltar pro Brasil.
Sei que os bahianos ainda são mais “outgoing” do que os cariocas, que um “dedo de prosa” é fundamental, e honestamente, isso não existe aqui.

Já tentei puxar assunto com portugueses e eles limitam-se ao “pois….”. Isso quer dizer que não vão adentrar no assunto, não vão continuar a conversa e estão sendo educadíssimos em te responder. É sério.

Quanto estive aqui em 2006, a turismo, achei o comportamento das pessoas um tanto quanto frio, rude e tal, mas hoje eu entendo que eles não são muito de risos e comentários porque eles são extramamente reservados. Somente alguns brincam ou retribuem um sorriso.

Tem um Irish Pub na Rua da Pimenta, no Parque das Nações, e certa vez fomos lá almoçar, e pedi um imperial (chopp). Quando o rapaz trouxe de volta, disse de forma muito simpática “olha o choppinho!”. Ele era português.
Esse tipo de comportamento é raro. No máximo eles pedem licença e colocam o copo na mesa, saem tão rápido que nem dá tempo de ouvir o meu “obrigado” por ter me servido.
Eles são extremamente educados (muito mais que muito brasileiro), mas não necessariamente serão simpáticos.

Entendo que algumas pessoas não se adaptem ao clima (as estações são muitíssimo bem definidas), ao raciocínio we trust in people (alguns serviços são do estilo “self” e não há aquela sensação de desconfiança quando você vai trocar uma roupa numa loja, por exemplo. É um direito seu, vai ser exercido), ao humor do português (as piadas aqui são pesadas ou bobas demais, nunca o meio termo), ao fato da moeda ser quase 3x mais que a do Brasil e mantém-se o hábito de fazer conta pra tudo (comprar pão e converter em Real, comprar refrigerante e converter em Real, comprar cerveja e converter em Real, etc) e acharem tudo super caro, etc.

Eu acho que a partir do momento que você decide atravessar o oceano para viver em outro lugar, é de bom tom entender os hábitos e costumes do local, respeitar as regras da sociedade, e principalmente, respeitar a sociedade. Não adianta puxar assunto com uma pessoa na padaria porque ela não vai te dar bola. Vão te olhar torto e te dar as costas. Mas isso não tem nada a ver com o fato de ser brasileiro, e sim porque o povo português, principalmente os mais velhos, são muito reservados e não falam com estranhos, ainda mais com estrangeiros (independente da origem).
Claro que existem exceções, mas no geral as pessoas são assim.

Portugal é um país pequeno, mas muito aconchegante. Eu amo essa terra, amo viver aqui. É duro ver que algumas pessoas não conseguem “se adaptar” à vida aqui. Mais duro ainda é ver que a maioria das pessoas que não se adaptam acham que tudo deveria ser tal como no Brasil, na cidade onde viviam. Talvez pensem assim pelo fato de falarmos o mesmo idioma, mas esse raciocínio é totalmente errado, porque não falamos a mesma língua. Existem verbetes diferentes, nomes diferentes para objetos (exemplo: o limão aqui é chamado de lima; e o limão aqui é aquele amarelo, igual o dos filmes americanos),  expressões diferentes, utilização de verbos de forma diferente (aqui não existe gerúndio), etc.

Fica então o meu alerta: aqui é maravilhoso, mas não é nada igual ao Brasil, as pessoas não são tais como as brasileiras, os hábitos não são como os que convivíamos.
Se são melhores ou piores? Depende do ponto de vista. Ao meu ver é muito melhor, mas será que você vai pensar da mesma forma que eu?

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6 comentários sobre “Uns adaptam-se, outros…

  1. Faz tempo que não escreves, minha amiga. Encontraste, finalmente, um trabalho?! Se for isso, parabéns! E muito Boa Sorte!!!

    Abraços.

  2. Extremamente educado só pode ser brincadeira. Eu trabalho com muitos portugueses que têm pelo menos educação formal (na na escola ou na universidade), mas posso dizer que há um grupo pequeno, que sabe se portar quando abre a boca para discutir. E o mesmo acontece no Brasil, Alemanha, Índia, Holanda … por acaso falo o inglês, o alemão e o francês e posso te dizer que quando nunca deixei de ser insultado ou motivo de brincadeira em França ou Alemanha na língua em língua estrangeira. Todos eles tecem insultos quando não sabem que falamos a língua deles. Assim como já perdia a conta dos insultos e chacotas que ouvi os portugueses dizer aos alemães e indianos em suas caras, só por que não entendiam da língua portuguesa. Essa gente toda era educada, engenheiros, doutores, advogados … .

    Discordo que o português seja reservado, na verdade ele não sabe o que é lidar com outras pessoas fora da família.

    Quando olho para o Brasil, vejo que o povo não é civilizado nos moldes europeus, mas alguns conseguem ser incrivelmente humanos nas suas misérias. Já na Europa, há civilidade por todos os lugares em que se passa, mas já perdi as esperanças de encontrar algum calor humano gratuito por aqui.

    E a vida é muito curta para vivermos de cara fechada todos os dias. Por isso todos os dias no caminho do trabalho cumprimento toda gente, e para aqueles que não me cumprimentam … amanhã eu tentarei de novo.

  3. Olá!
    Sou guineense, moro no Brazil (ES) há 6 anos e tal e em breve vou me mudar para Lisboa.

    Concordo com tudo o que escreveu neste post. Percebo que você é uma pessoa educada e muito tolerante. É uma pena que tantas pessoas não sejam assim.

    A cultura define muito um povo. Eu não posso dizer que me adaptei ao Brasil porque não é totalmente verdade. Fiz muitos bons amigos aqui e acho que os brasileiros são muito calorosos, sim, mas aqui em Vitória as pessoas também são frias, ao contrário da maioria dos cariocas e dos bahianos.

    Eu gosto muito de Lisboa e acho que apesar dos mais velhos serem bastante ‘fechados’, a juventude está mais aberta e simpática.

    Uma das coisas que me chocou muito aqui no Brasil é o racismo ‘dissimulado’, eu não esperava que fosse tanto assim. Mas em Portugal também são racistas, aliás, em todos os lugares há pessoas simpáticas e antipáticas, racistas e não racistas, boas e más.

    Espero que os que decidam morar em Portugal não o façam sem pesquisar muito e procurar conhecer a cultura e os lugares. E, principalmente, estar pronto para experimentar coisas diferentes (senão, mais vale a pena ficar onde estão).

    O seu blog é muito útil, até para pessoas como eu que já moraram em Lisboa. Gostei muito, e espero que continue a escrever.
    Um abraço!

  4. Oi !! tbm sou carioca da gema.

    Adorei tudo que vc escreveu,sou carioca de bem com a vida!! Casada,com 3 filhos e atualmente morando no Ceará a 12 anos! E com certeza em breve indo morar em Lisboa,e seguindo todas as suas dicas,e caso vc tenha Face adoraria add.

    Quanto aos Brasileiros acho tudo bem complexo,moro a muitos anos no nordeste e se vc perguntar se temos amigos,vou dizer não, temos conhecidos.Nasci e cresci no Rio os meus amigos de 31 anos desde que nasci continuam meus amigos,mais somente on-line.

    Sendo assim falo com vizinhos tipo bom dia,saio com meu cachorro na rua e caso alguém venha falar respondo,pois sou muito simpática e como vc falou aí nem falam com as pessoas nos supermercados e eu falo com todas as pessoas que me atendem.E não estou preocupada com a aparência se tem grana ou não eu simplesmente falo,e com certeza não é isso que acontece aqui onde moro atualmente,o preconceito é algo que esta enraizado nas pessoas,se vc não tem um carro bacana,ou anda com etiqueta vc não é bem aceito.

    Como nunca me preocupei com isso e ensinei o mesmo para os meus filhos,o que importa e a educação,respeito e generosidade.Tenho certeza que vou me dar muito bem em Lisboa,e se realmente quiser falar com os amigos,vou para internet ou converso com a minha família em casa.

    Agora com certeza,todos que chegarem para conversar comigo aí,vaõ ser sempre bem vindos ,adoro companhia,e não existe nada melhor do que jogar conversa fora…

    Espero um dia poder conhece-lá pessoalmente,e que vc conheça a minha família,temos cidadania portuguesa.E já vamos aposentados só os meninos vaão continuar na Universidade.

    Abraços de uma amiga Carioca.

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