E a crise?

Tenho recebido alguns e-mails com dúvidas sobre a vida em Portugal, a crise, se vale a pena mudar pra cá, etc. Não consigo responder a todos, porque quando chego em casa raramente consigo ficar no computador, e aos fins de semana, sou mãe 24h, e o computador serve pra conectar com a família distante pra dar um alôzinho e verem o meu filhote.

Mas hoje eu me obriguei a reservar uma horinha pra abordar esse assunto. Não sou expert, mas vivo aqui e tenho direito à minha opinião pessoal.

Vamos ser práticos: considerando que eu cresci num país constantemente em crise e que hoje as coisas estão menos críticas para alguns apesar da corrupção, tenho a certeza que Portugal vai sair da crise sim. Mas não será em 2013, nem em 2015. Quiçá 2017.

Por que cheguei a essa conclusão? Simples:
o pessimismo, o desgoverno, o abandono da gestão dos serviços públicos que antes funcionavam muito bem (há quem se queixe desde sempre, eu acho que do jeito que estava antes era algo próximo do excelente) e a escassez de investimentos estão transformando Portugal em um país às moscas.

Não sei se vocês souberam disso, mas o atual primeiro ministro, o sr. Pedro Passos Coelho, sugeriu que os jovens que não conseguissem emprego em Portugal que emigrassem em busca de oportunidades melhores. Ó, Deus meu!!! Onde no mundo que um líder do país iria sugerir que a sua força de trabalho fosse embora? Se a população economicamente ativa diminui, com ela também decrescem a arrecadação de impostos. Essa foi apenas uma das porcarias que ele fez.

Portugal hoje é um país idoso, menos jovens significa menos volume de dinheiro circulando, menos crianças nascendo, menor necessidade de ter professores, e pode parecer que não, mas o fato de uma pessoa a menos empregada afeta indiretamente a vida de algumas outras pessoas. É menos uma pessoa a consumir refeição na rua, a usar os transportes, a comprar roupas para o trabalho, a adquirir novos bens de valor agregado (moto, carro, computadores, etc). Imaginem que cerca de 18% das pessoas que estavam empregadas estão hoje às custas do governo com subsídios desemprego e apoio social? Lembrando: aqui não tem CLT. Subsídio desemprego pode durar até 2 anos, dependendo do tipo de contrato e do tempo trabalhado.

Cada vez mais exploram e exigem comprometimento das pessoas no trabalho, pagando exatamente o mesmo. Posso falar por mim, que sou supervisora e treinadora e não tive nenhum aumento proporcional ao aumento da minha carga de trabalho. Gosto do que faço, não nego. E mesmo que eu fique desmotivada por alguma razão $$$, não é do meu estilo fazer trabalho porco. Não posso dizer o mesmo de algumas pessoas que trabalham comigo. E por isso eu acho que só depois que mudar a cabeça de boa parte da população as coisas podem começar a melhorar. E repito: começar a melhorar.

Por exemplo: existem algumas pessoas ali comigo que não vão trabalhar e não dão a mínima satisfação. E quando eu perguntava no dia seguinte o que aconteceu a resposta é assim: “não me apeteceu vir trabalhar”. Trocando em miúdos no carioquês claro: “não tava afim”.

E essas pessoas não são demitidas como eu já vi acontecer no Brasil. Faltam na cara de pau e, de acordo com a Lei Trabalhista em vigor, são necessários 15 dias consecutivos de absenteísmo para que seja caracterizado abandono de emprego, desde que não haja justificativa por escrito para tal, como por exemplo: doença.

Demissão por abandono de emprego não dá direito a subsídio desemprego. Então o que essas pessoas fazem? Faltam uma semana, aparecem na outra, faltam mais dois dias, aparecem um terceiro, falta o resto da semana e… testam a paciência do empregador até dizer chega. Depois são demitidas por uma razão que não é considerada justa causa (apesar de que aqui é muito mais fácil dar justa causa em uma demissão) e vivem de que? Do subsídio desemprego. E dá-lhe verba pública pra sustentar tanta gente.

Claro que atualmente as empresas estão demitindo pelas razões do efeito em cascata que mencionei antes. Menos pessoas consumindo e utilizando serviços vai fazer com que não haja a necessidade de tantos postos de trabalho.

Mas ainda assim existem negócios prosperando nessa altura crítica da história de Portugal. Um deles tenho a certeza que todo carioca conhece e com certeza já usufruiu: a quentinha.

Descobriram essa mamata aqui e o primeiro cara que reinventou o conceito já está recusando novos clientes, porque não dá conta de tanta demanda. Mas não é perfeito. Você tem que fazer o pedido de véspera, ou seja, eu tenho que saber hoje se amanhã vou precisar pedir comida. Ainda não experimentei, mas um dia, vou arriscar. O que está muito bem organizado é A Marmita.

Outro negócio que também está crescendo e conquistando cada vez mais fãs é a Padaria Portuguesa. Eu adoro. Os pães são bons, fresquinhos o dia inteiro (coisa rara em padarias aqui, acreditem!!!) e até agora é o melhor croquete de carne que já comi em Lisboa. Lógico que o melhor do mundo é o do Alemão, em Petrópolis.

A hotelaria e turismo também está crescendo, mas a uma velocidade muito diminuta em relação ao potencial de turismo que se tem aqui. Onde eu moro construíram dois hotéis. Um Ibis e um Sana. Aumento de posto de trabalho, ok. E no efeito cascata, aumento de tudo um pouco. Mas as pessoas não acreditam no potencial financeiro do turista. Essa gente viaja pra gastar dinheiro e ninguém tá afim de ajudar. É essa a sensação que eu tenho algumas vezes.

Em três parágrafos eu dei exemplos de negócios que foram possíveis porque alguém enxergou para além da crise e viu uma oportunidade de negócio.

Eu tenho milhões de ideias de negócios para fazer em Lisboa, mas é uma incógnita o futuro e a prosperidade do negócio. O perfil de consumo do português e a lógica de algumas coisas, pra mim, não faz sentido. Não estou generalizando, lógico que algumas pessoas não são assim, mas eu já coloquei a algumas pessoas a seguinte questão: você tem dois cafés  (=lanchonetes). Um ao lado do outro. Ambos vendem empadas de galinha. Num, custa 1€ e é uma delícia. No outro, custa 90€ e é seca, mal temperada, a massa não é tão saborosa. Onde você prefere comer?
Surpreendentemente um volume considerável de pessoas preferem pagar menos a ter uma boa experiência no paladar. E não venham me dizer que preferem o mais barato porque a crise os obriga! Os salgados (quando os encontramos) são sempre frios e algumas pessoas preferem assim. Um Outback aqui não se cria (e não se criou, esteve aberto por um ano em 2005 e fechou, não havendo interesse da rede em voltar a ter negócio em Portugal).

Portanto, por mais interessante seja a sua ideia para abrir um negócio em Portugal, pense antes se o que você tem em mente se aplica à sua realidade apenas, porque a cultura, a forma de pensar e as preferências do povo aqui são muito diferentes.

Sobre empregos. Está escasso, mas ainda existem boas oportunidades no ramo do outsourcing, especificamente em call center, e se você fala algo além de português, inglês ou espanhol, as suas chances de conseguir uma colocação aumentam.

Existe um diferencial que o brasileiro tem que é o “sevira”. Se vira nos 30. Topa qualquer tipo de trabalho e ainda o faz com sorriso no rosto e com bom humor. Falta isso aqui. Como falta! Mas os brazucas que estão cá há mais tempo esqueceram do que é o calor humano e como é agradável entrar em qualquer loja ou ligar para qualquer serviço e ouvir uma voz com tom de disponibilidade e amabilidade, e não com o tom de que estão me fazendo um favor em me dirigirem a palavra, mesmo estando eu disposta a consumir.

Não venham tentar a vida. Venham conseguir viver. Pesquisem, vejam possibilidades, consultem os preços das moradias e, principalmente, venham já habilitados para trabalhar. Não se dá emprego a quem não tem autorização para trabalhar.

E caso a ideia seja vir para cá, fazer um dinheirinho e depois voltar para o Brasil, esqueça. Isso faz-sem em Angola, nos Estados Unidos, na Nova Zelândia. A maré aqui não está propícia para “fazer” dinheiro. Infelizmente.

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5 comentários sobre “E a crise?

  1. Boa tarde, gostei do texto, é muito esclarecedor, vou me mudar para Portugal no final deste ano, meu noivo é português e decidimos que vou morar aí, estudo no Brasil e vi que existe a possibilidade de transferência do meu curso para uma Universidade em Lisboa, mas para estudar preciso trabalhar, não falo outro idioma além de português (ainda) estive vendo vagas na área de call center pois já trabalhei anos com isso aqui no Brasil, saberia me dizer de modo geral quais os pré requisitos para um estrangeiro trabalhar em call center aí? Fico grata des de já!

    1. ola, Lidia!
      aqui nao se exige muito para algumas atividades. call center geralmente ta associado com vendas, e o salario nao é o melhor dos mundos (nada aqui atualmente paga bem), mas é completamente diferente do clima dos callcenters do brasil. ja trabalhei nisso la e trabalho em call center aqui, e garanto que aqui é mel na chupeta.
      procura ver as oportunidades que existem hoje. veja nos sites: net empregos, kelly service, randstad, sapo empregos, adecco, manpower e teleperformance.
      bjs e bia sorte!!!

  2. Oiiiii !! Olha eu aqui de novo,primeiro gostaria de parabeniza-lá pois vc escreve muito bem ,e tudo esta muito nítido !! Só agora encontrei seu Blog,e temos muitas semelhanças,tive o mesmo problema do seu marido o CA de tiroide,e falando nisso como ele esta ? Espero que ótimo.Me fale uma coisa, que essa é uma grande dúvida !! Seu marido foi bem tratado aí,com o problema do CA e quanto a medicação e acompanhamento e feito tudo direitinho ,esse é um dos receios que tenho de ir para Portugal,pois aqui tenho que de 6 em 6 meses fazer todos os exames de sangue ,vc poderia me ajudar nessa dúvida?
    Outro sim ,como sou esposa de cidadão português,qto tempo teria que morar aí para conseguir a cidadania portuguesa,e o que vc teria que fazer para mostrar,que tinha com relação a Portugal que não fosse marcar o (x).
    Pensamos em mudar para Portugal,mais íamos viver da aposentadoria do meu marido,e nossos filhos iriam para estudar,e se tudo ficasse bem, iriamos nos tornar voluntários em casa de idosos.O que vc acha…Haaa quanto ao croquete do Alemão,vc tem razão não tem igual,morava no Leblon no Rio,depois morei em Itaipava por 13 anos,filhos foram crescendo, para conseguir melhor custo de vida meu marido,veio transferido para Fortaleza-Ce . Gostaria de um conselho seu,com certeza já passamos por muitas pedras no caminho tbm!! Mais nada que uma britadeira não de jeito não é!!! LoL
    Sei que vc se mudou para o Reino Unido.Mais a saúde em Portugal melhorou alguma coisa, pois não temos condições de ter mais plano de saúde no Brasil…
    Outra coisa,assim que vc chegou em Portugal para onde vc foi ? Como vc,tenho uma Cocker Spaniel de 8 anos ela esta cega ,mais é linda e não quero deixa-lá para trás de jeito nenhum….Vc pode me dizer uma boa opção de moradia,para assim que chegarmos,tipo saindo do Aeroporto e agora!!!!E somso em 4 adultos eu meu marido e os filhos,ainda deixando um para trás que mora em Sampa.

    Felicidades na sua nova moradia.Deus Abençoe a vc e a toda familia.
    E muito obrigada….

  3. Adorei seu texto! Mas acho que essa amabilidade e simpatia em serviços com o público deve ser dirigida ao carioca, pois você nunca deve ter sido atendida por um cearense aqui em Fortaleza! Hahaha. Pessoal não só atende mal, parece que estão fazendo
    Um favor enorme. E outra, minha mãe vai muito a Portugal, e ela disse que é sempre bem atendida em todos os lugares que vai.
    De resto achei muito interessante seu texto, obrigada pelas dicas!

    1. Ahahah
      Obrigada por visitar meu blog!
      Eu nunca estive em Fortaleza, mas podemos abrir um concurso de falta de amabilidade rs
      A turismo sempre sao bem atendidos, quando moramos a coisa muda de figura rs
      Agora na Inglaterra eu tô chocada com o excesso de simpatia. É lindo hahaha
      Bjs mil!

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