A crise – Parte II

Nesse tempo que estive sem escrever recebi alguns emails perguntando sobre a crise na Europa, como está afetando Portugal, questões sobre a intensidade dos problemas financeiros do país e se eu acho que seria um bom momento para a imigração.

Então é assim: eu não acompanho 100% das alterações que o governo fez, porque algumas dela não vão afetar em nada a minha vida: redução do valor da aposentadoria, redução de subsídios (desemprego e uns tipo bolsa família), aumento das rendas sociais (aluguéis de moradia subsidiados pelo governo, onde a pessoa que era beneficiada tinha um compromisso de pagar em torno de 25€ de aluguel e o governo arcava com o resto; e tá previsto que em 3 anos essa mesma pessoa pague até 300€ de aluguel), cortes na função pública, etc.

Nota 1: deixo claro que não concordo com as decisões do sr. Passos Coelho, mas com tanta coisa na minha vida por entender e dar conta, só fixo na mente os headlines das notícias e evito entender detalhes.

Nota 2: esqueçam a forma em que a função pública funciona no Brasil. Aí é mamata. Aqui o emprego não é vitalício, os salários não são altos, e as pessoas trabalham mais do que na iniciativa privada.
Mesmo das alterações que afetam diretamente o meu bolso, as regras em si não sei de cabeça.
Sei que:

  • no trabalho, uma falta não justificada numa 6ª ou numa 2ª feira ou dia antes ou depois de feriado, vai gerar a perda do pagamento do fim de semana e respectivo feriado. Por exemplo: se você faltar numa 2ª feira, tipo pra emendar a 3ª de carnaval (não, aqui ninguém enforca, o carnaval passa despercebido), vão te descontar o sábado, o domingo,  a 2ª e a 3ª feira.
  • corte no subsídio de natal (13º salário): metade do que vc receber, acima do salário mínimo, é do governo. Por exemplo: o mínimo é 485€ (uma vergonha, eu sei, e muita gente só pode contar com isso pra viver. Muita mesmo.) e se seu ordenado base é de 500€, a conta fica assim “500-485=15” ; Metade de 15€ é do governo, logo, 7,5€. Nem vai para a sua conta, é descontado logo no contra-cheque. Parece irrisório, mas imagina o impacto que dá na vida de quem ganha 1000€.
  • entrada em vigor da lei dos duodécimos: passa a ser obrigatório para quem está efetivo o pagamento das férias e do 13º em duodécimos (o somatório dos 2, divididos por 12, pagos mensalmente, em vez de pagarem unicamente no Natal e nas férias), salvo se o próprio trabalhador efetivo manifestar por escrito a intenção de não receber em duodécimos
  • o valor mínimo do subsídio refeição/alimentação não teve aumento e quem ganhar mais que o mínimo vai ser descontado proporcionalmente no imposto de renda (IRS).
  • indenização por despedimento: aqui não existe nada parecido com a CLT. É tudo um acordo feito entre ambas as partes, mas que tem uma diretriz pra se basearem na negociação. Se o trabalhador for efetivo, e se foi efetivado antes de Novembro 2011, terá direito a 30 dias de remuneração por cada ano trabalhado. Se o contrato efetivo começou depois, terá direito a 20 dias por cada ano trabalhado. Se não for efetivo, terá direito a 2 OU 3 dias por cada mês trabalhado, desde que esse somatório de diaszinhos não seja mais que 180 dias.
  • a alíquota do imposto de renda aumentou, e muitas deduções foram cortadas. Não vale a pena entrar em detalhe, são muitas regras para definição da alíquota, mas caso queiram mais informações, coloquei um link para o site das finanças onde é possível consultar as alíquotas atualizadas.
  • aumento das taxas moderadoras do atendimento público de saúde
  • aumento do imposto (IVA) no setor da alimentação (restaurantes) de 13% para 23%
  • dificultou o acesso ao crédito (empréstimos, financiamentos, etc)
  • aumento das propinas (anuidades) das universidades públicas (sim, o público aqui se paga. Menos que o privado, mas paga).
  • recálculo e aumento substancial do IMI (= IPTU)

Além disso, ele fechou escolas, demitiu milhares de professores, acabou com o projeto do TGV (que causou a falência de várias empresas envolvidas com o projeto e jogou fora todo o dinheiro investido), implementação de pedágio em estradas que são a única via de acesso a determinadas cidades (e que estas estradas se chamavam SCUT, ou sejam “Sem Custo para o Utente”),  está privatizando TUDO, inclusive tem planos de privatizar os correios, fechou agências de correios (obrigando que pessoas tenham que viajar pelo menos 30km para chegar a uma agência dos correios), quer fazer umas mamatas com a TAP (vender a TAP por um valor ridículo: 25 milhões de euros. Atenção, a TAP tem uma frota de mais de 50 aviões, patrimonio avaliado em mais de 2 bilhões de euros).

Óbvio que não acabou por aí.Tudo isso tem consequências transversais, e posso dizer que uma delas que se nota muito é o preço de produtos no supermercado.  O que há dois anos comprávamos com 50 euros, não dá pra fazer o mesmo agora. Restaurantes que eu amo fecharam (o Chilis, por exemplo).

Mas relatei isso tudo apenas para vocês tirarem as suas próprias conclusões sobre a imigração.

Minha opinião pessoal: Portugal não está no fundo do poço, mas se o Passos Coelho continuar no governo, mais uns dois anos e o fundo do poço vai ser um lugar legal pra se viver (metáfora para: vai ser muito pior que o fundo do poço). Ele próprio sugeriu aos portugueses que fossem para viver em outros países para fugir da situação crítica que Portugal está atravessando.

Agora existe um fanfarrão como “vice-primeiro ministro” (seria segundo ministro?), um cargo que não existe normalmente, mas para satisfação dos egos e das relações interesseiras na política, foi necessário. Esse fanfarrão, cujo nome é Paulo e o sobrenome compara a sua nobre inteligência com o objeto a que se refere (porta), pretende reduzir a escolaridade mínima de Portugal para o 9º ano (equivale ao ensino fundamental no Brasil – antiga 8ª série).

Cresci num país em crise, com meus pais faziam das tripas coração pra me dar boa escola e boa educação, comendo bife de chuchu porque não podíamos ter o luxo de comer carne todos os dias. Mas tudo isso passou. Acredito que em 5 anos as coisas pro lado de cá começarão a melhorar e não sou contra a imigração. Sou contra a perda de tempo. Se você tiver planos de vir pra cá pra “vou ver no que dá”, não venha. Mas se você já tem tudo traçado, emprego garantido, vem com tudo! Precisamos de mão de obra qualificada (porque os bons seguiram os conselhos do primeiro ministro e emigraram), precisamos de pessoas com força de vontade e sem medo de desafios.

Morar num outro país é muito complicado. Veja bem, eu amo Portugal. Mas não é do dia pra noite que conseguimos entrar “no clima” dos costumes. A sociedade é diferente da brasileira, as pessoas são diferentes, o humor é diferente.

É normal encontrar uma resistência nas pessoas quando você aqui se instalar, afinal, na cabeça deles, você vem aqui para tirar o emprego de um familiar dele (óbvio que eles não pensam da mesma forma quando um parente deles vai para outro país, porque para muitos, os portugueses podem explorar o mundo, mas ninguém pode explorar Portugal).

Eu trabalho há 3 anos na mesma empresa e recentemente me foi feita uma proposta para fazer a comunicação do RH com um departamento de 400 pessoas. Hoje já me aceitam muito bem, mas levou algumas semanas para não me olharem torto. Certamente alguns pensaram “o que essa brasileira tá fazendo aqui?”, mas eu aceitei um desafio e isso fazia parte dele.

Só peço a vocês que pensem com carinho antes de decidirem imigrar. É duro, é difícil. Mas bem pensado pode ser a verdadeira mudaça de vida para alguns de vocês.

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10 comentários sobre “A crise – Parte II

  1. Bom dia Carol, estou certo de imigrar para Portugal, sou cidadão e pretendo arrumar uma vaga como analista de sistemas, área na qual possuo formação e exerço há 6 anos, pretendo capitalizar algum dinheiro, por isso minha ida não será agora, acredito que em 1 ou 2 anos, estou indo passar férias ai mês que vem, já fazem mais de 2 anos que fui(Out/2011) e ADOREI ! Você sabe como faço para validar meu diploma ai, precisa fazer algo ou eles aceitam o diploma daqui numa boa ? Saberia também algum site para procurar vagas de analista de sistemas ou pessoas que poderiam me ajudar ? Agradeço MUITO desde já a sua ajuda.

    1. olá, Felipe! não é difícil, e acho que a sua área de formação não precisa de equivalência.
      primeiro passo: vc tem que contactar o consulado português da sua cidade pra saber o que precisa levar. eu tive que reconhecer a firma do fulano que assinou o meu diploma e meu certificado de habilitações. depois levei no consulado pra eles reconhecerem a idoneidade do cicrano que reconheu a firma do fulano.
      então eles puseram o selo branco (carimbo de relevo) nos documentos e pronto. posso apresenta-los aqui e fazer qualquer outro curso.
      geralmente para áreas técnicas eles não exigem comprovação de estudos, fica mais pela experiência mesmo. se vc tem experiências, use e a abuse dela no seu currículo. é isso que vai te valorizar. não esqueça de mencionar que tem nacionalidade portuguesa no seu currículo.
      ah! faz um cv no europass. eles gostam muito deste template e é padrão na união europeia.
      abraços e boa sorte!!

  2. Olá Carol! Tudo bem? Estou indo fazer meu doutorado sanduíche aí em Lisboa em setembro. Ficarei por um ano com bolsa brasileira. Meu marido vai me acompanhar. Quero lhe perguntar se mesmo com a crise existe a possibilidade dele conseguir um emprego durante o período de nossa estadia. Ele faz faculdade de Educação Física e trabalha com logística no Brasil. Nós pensamos em algo na área ou até mesmo em qualquer outra área… Obrigada pelas informações!

    1. Olá, Andresa.
      Vc tem que ter um visto de trabalho para conseguir trabalhar. Se o seu de estudo também permitir trabalho, tem que ir no SEF para pedir visto de trabalho para o teu marido.
      Sem visto de trabalho, não rola emprego. A multa é muito pesada se tiver fiscalização do SEF e identificarem estrangeiros ilegais.
      Te recomendo ver os sites de emprego: trovit emprego, randstad, egor, slot, kelly service, adecco, manpower, etc…
      Lembrando: aqui tá difícil o emprego, mas em Lisboa a coisa tá um pouquinho melhor. Tem muita oferta na área da alimentação e cal center. Tem que pesquisar mesmo pra ver o que vc gosta.

  3. Obrigada pelo retorno! E desculpe a demora em agradecer! Andei meio afastada! O emprego é para o meu marido. Na realidade estamos pensando em cursos para ele neste período de um ano (talvez de culinária, vinhos ou inglês). O que vou ganhar (pela bolsa) creio que sustenta nós dois neste período. Além disso estamos no modo econômico a um tempinho já! 🙂

    1. ótimo! As escolas de turismo de portugal têm cursos destes gêneros. É como uma associação das instituições que ministram cursos de hotelaria e turismo e reinem as informações num único site, mas na verdade abrange o país inteiro.
      os cursos não são tão caros, mas é imprescindível que ele tenha autorização de residência com permissão para estudos, e além disso, tem que fazer aquela burocracia básica no consultado português aí no brasil, pra “homologar” os certificados do nível de escolaridade do teu marido.
      boa sorte para ambos e espero que de tudo certo! 🙂

  4. Oi Carol, estou me organizando para fazer mestrado em Lisboa esse ano. Não tenho bolsa, mas consegui juntar dinheiro que pelos meus cálculos são suficientes para uns 8, 10 meses vivendo aí. Tenho uma reserva, mais mesmo assim preciso arranjar alguma fonte de renda para conseguir finalizar meu curso. Minha dúvida é sobre possibilidades de trabalho. Você fala que só é possível trabalhar com visto de trabalho. Mesmo considerando o subemprego (existem vagas de subemprego disponíveis mesmo com a crise?)? Pergunto, pois ainda não solicitei meu visto, pois estou no aguardo da carta da universidade. Dessa forma, você me aconselharia solicitar visto com autorização de trabalho e não visto de apenas estudante? E é possível conseguir esse visto sem um contrato de trabalho? Desde já, obrigada pelo blog com tantas informações esclarecedoras.

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