Pedra no meio do caminho

No meio do caminho havia um gânglio. Havia um gânglio no meio do caminho.

“Semi- parafraseando” o querido CDA, no meio da nossa caminhada havia um gânglio.
Exatamente no dia 15/01/2014 descobrimos que algo tão pequeno faria uma diferença enorme em nossas vidas. Sabíamos que havia algo já há alguns dias, mas as dimensões e gravidade eram desconhecidas.
3,5 cm. O tamanho de uma tampa de caneta Bic sem aquela coisinha fininha (que uns mastigam e outros quebram entre os dedos). Essa era a primeira pedra no meio do caminho.
Num ultrassom (ecografia) feito por um médico a este gânglio de 3,5 cm, foi descoberto que havia ainda uma pedra menor, mais forte e maligna. 0,8 cm.
Desde que estamos juntos (um pouco mais que uma década) já encontramos no meio do caminho muitas pedras, pedregulhos e icebergs que conseguimos ultrapassar (ou demos um chute pra sair do caminho), mas nada foi tão devastador como essa coisa tão pequena.
Pode parecer arrogante, mas me considero uma das pessoas mais felizes do mundo por ter um marido maravilhoso, um filho perfeito, tenho a cachorra mais fofa do mundo, meus pais estão vivos e nos damos muito bem, tenho duas afilhadas lindas e inteligentes, tenho amigos verdadeiros mais que fiéis, tenho saúde e moro numa cidade que amo.
Acredito em Deus, mas algumas vezes acho que coisas esquisitas acontecem para equilibrar energias, então acho que Deus fez uma regra onde ninguém pode ser tão feliz 100% do tempo. Eu sou, mas chegou a um ponto de estabilidade nesta felicidade plena que o universo conspirou para baixar esta taxa de felicidade: Meu marido foi diagnosticado com câncer da tiroide.
Perdi meu chão, meu leste. Como assim? O amor da minha vida e minha cara-metade tem uma doença incurável que é estudada há mais de 40 anos sem muita evolução? O que nós fizemos para merecer isso? O que ele fez para merecer isso?
Foi muito difícil ver o diagnóstico. Mais difícil ainda foi ele não ter aceitado de cara a cirurgia. Acreditou que não era necessário operar, pesquisou em diversas fontes que várias pessoas tem tumor na tiroide e morrem por outras causas, que vários tumores nunca se manifestaram em uma parcela considerável da população afetada por este diagnóstico. Comprou dois livros sobre a doença para entender o que era e justificar a decisão de não remover cirurgicamente.
Por uma semana achei que ia perder meu marido, e consequentemente a minha razão de viver. Eu sei que tenho um filho, e além de amá-lo incondicionalmente, sei que ele precisa de mim, mas eu fiquei tão sem norte durante este período que achei que ia definhar junto com a tiroide do meu marido.
O cirurgião nos explicou muita coisa, fez vários exames e disse-nos que até os 80 anos de vida todos teremos algum tipo de tumor, e que se ele pudesse escolher qual seria o dele, escolheria o que o meu marido tem. O prognóstico é de 98% em caso de cirurgia, com tratamento de iodo radioterapia.
Felizmente, fez-se luz e ele decidiu por operar. O período entre a decisão de operar e a cirurgia em si fez com que pensássemos nas coisas que já vivemos, nas que vamos viver e o motivo disso tudo. A conclusão que chegamos é que nós somos realmente abençoados. Há quem diga que é sorte. Mas eu sinceramente acredito que somos merecedores da nossa felicidade. Mesmo com esse pequeno percalço sinto que foi uma sorte termos descoberto o tumor a tempo.

É tal e qual como Drummond disse: nunca vou esquecer deste acontecimento.

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