Fazer amigos em Lisboa – Parte II

Anos depois do primeiro post com este tema, recebi vários emails e comentários sobre o assunto. E senti-me na obrigação de contar como é o meu pensamento hoje em relação a isso.

O que mantém-se:

  • Sim, os portugueses são mais fechados
  • Não, ninguém vai trocar telefone com você na fila do mercado e combinar de fazer um churrascão no fim de semana
  • O humor dos portugueses é mais ácido do que o dos brasileiros
  • Em geral, os portugueses tem uma natureza pessimista

O que eu descobri:

  • Não, não há happy hour. Há no máximo um “jantar de convívio”, em que algumas pessoas esticam no Bairro Alto ou na Rua Cor de Rosa
  • Os mais jovens são mais abertos a novas amizades
  • Existe sim uma resistência em confiar nas pessoas a ponto de criar um certo grau de intimidade
  • Sim, a casa é um templo sagrado e se você for convidado para ir até lá, é porque você é uma pessoa  mesmo muito querida
  • Quanto maior o poder aquisitivo da pessoa (ou a preocupação dela em exibí-lo), menos aberta a novas amizades ela é (não é regra, mas a incidência é muito alta)

Os brasileiros que geralmente vêm de Minas, Goiás ou Nordeste, naturalmente e em sua maioria, são mais dados a intimidade rápida. Os do Sudeste e Sul são mais reservados, mais parecidos com o distanciamento que os portugueses dão quando conhecem novas pessoas.

Isso gera carência em quem estava habituado a ter pessoas entrando e saindo de casa, churrascão, conhecer gente nova e marcar de tomar um choppinho. Eu, bicho do mato que sou, não sofri tanto assim. É uma questão de deixar acontecer.

Depois do meu primeiro post, eu entrei para uma empresa de prestação de serviços de callcenter. Voltei pra estaca zero, atendendo telefone. Senti muito medo de ser rejeitada pelos clientes devido ao meu sotaque. Mas depois vi que era uma questão de relaxar. Babacas sempre vão existir em qualquer país. Em serviço de atendimento a cliente então! Nossa… tem sempre um babaca ligando. Adaptei a linguagem ao português luso (não o sotaque, mas a formalidade e algumas palavras e verbos), mas continuei com o sorriso na voz (característica minha, não adianta que não é forçado, é mesmo meu) e deu muito certo em termos profissionais.

Nesta empresa, durante a formação (treinamento), que começou em Nov/2010 tive contato com umas 12 pessoas, além da formadora, que veio a ser minha supervisora de seguida. Pessoas dos mais variados meios sociais, de bairros diferentes, com formação escolar diferente, gostos diferentes, origem diferentes. Além dos portugueses tínhamos uma caboverdiana e uma sãotomense, além da brazuca aqui.

As pessoas eram realmente divertidas e passamos bons momentos juntos. Algumas eu não tive tanta afinidade, então pra essas nunca estendi meus pensamentos e o convívio para além do trabalho. Mas sempre tem alguém que o “santo bate mais“, e almoçando sempre juntas, batendo mais papo, descobrindo mais afinidade, saímos rapidamente da barreira do “horário do trabalho” para casualidade fora do trabalho. Ela tocava saxofone e flauta numa banda cover de outra que meu marido gosta muito e nos chamou pra ver um show. Nós fomos. Foi mesmo muito legal. Não conseguimos conversar durante o show (ela estava no palco trabalhando), mas no final, fui lá dar um alô discreto e já estava tarde e extremamente frio, então fomos depois pra casa.

E a partir daí começamos a combinar um jantarzinho na casa de uma e, naturalmente, eu ganhei uma super grande amiga. Conheço a família dela toda (que é adorável, diga-se de passagem), e hoje meu filho a chama de tia (e eu chamo a mãe dela de tia também). Trocamos confidências, nossos maridos se tornaram excelentes amigos, e realmente eu tenho uma amiga do peito em terras lusas. Nacionalidade? Portuguesíssima!!

A minha ex-supervisora também tornou-se nossa amiga e tem uma filha 3 meses mais velhas que o meu filho. Nossos filhos são amiguinhos, mas como não trabalhamos mais juntas perdemos a frequência do contato, mas mesmo assim nos damos ainda muito bem. Também portuguesa.

No último departamento que trabalhei conheci imensa gente. Sem exageros, umas 500 pessoas. Fiz amizade com a minha última chefe (carioquíssima), com a braço direito dela (portuguesa e mega fashion e divertidíssima), e fiz outras três amigas que são do melhor! Duas portuguesas e uma angolana. Se nos juntarmos, não há como não haver diversão. E agora em Dezembro elas devem vir cem casa pra conhecer a minha filhota, portanto, espero ter me recuperado bem do resguardo para conseguir rir sem sofrimento LOL

Todas essas pessoas são queridas e bem vindas a qualquer hora na minha casa. Não quer dizer que as outras pessoas que trabalhei, conheci e fiz amizade não sejam, mas é que existe um grau de intimidade e afinidade com determinadas pessoas que ultrapassa a barreira da formalidade.

Tenho um relacionamento excelente com muitas pessoas daqui, principalmente do meu ex-emprego. Não diria que são colegas. São mais que isso. São pessoas extremamente queridas.

Além do núcleo trabalho, tem o núcleo escola do meu filho. As meninas que ficavam com ele no berçário ou nas salas seguintes moram no meu coração. Adoro-as a todas. São mesmo especiais e considero algumas como amigas. Faço o meu filho chamar todo mundo de tia. Pra mim é importante que ele saiba que é permitido e positivo ter com elas mais que uma relação de “prestação de serviços”. Elas fazem um trabalho incrível e estão ali dedicadas aos filhos dos outros, ajudando no desenvolvimento deles e com amor. Isso pra mim transcende a prestação de serviços. Isso é mais que ouro. Não tem preço mesmo e valorizo demais o carinho delas com o meu filho.

Tenho também a minha prima de Viseu, que também é mesmo muito amiga, e que volta e meia passa um dia divertidíssimo aqui em casa. Adoro tê-la por cá. Agora no final da gravidez da Olivia ela não consegue mais dias pra vir tanto pra cá (também tem a vida dela, é lógico), mas me liga sempre pra saber novidades.

Conclusão: Não me sinto de todo sozinha em Portugal.

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