Vítimas da sociedade

Nesta (nova e recente) onda de arrastão na orla da Zona Sul do Rio tenho visto inúmeros posts, comentários e debates na minha timeline do facebook que criticam a (falta de) ação da polícia, criticam a ação (organizada) de menores infratores (que às vezes tem 1,80m de altura) e muitos terminam suas frases e desabafos com “já chega!”.

Quantas vezes já foi dito “já chega”?? Quanto tempo mais o carioca vai aguentar ser aprisionado dentro da própria casa?

Em meio a tantas partilhas de imagens, reportagens e memes do que aconteceu em Copacabana eu vi essa, em particular (não tem autoria, portanto, de quem for o crédito, avise-me para que eu dê os louros):Vitima

Sinto informar, mas é vítima da sociedade sim. Mas não da forma poética que se polemiza.

Uma sociedade onde dentro da favela não há lei, a autoridade máxima é o traficante, e que uma criança cresce aprendendo que o herói dele é quem manda matar, quem rouba. Uma criança que, aos cinco anos de idade, ouve qualquer adulto da sua realidade chamar o policial de porco, de otário. Que qualquer pessoa que não more na favela é playboy. Que ver armas e ouvir tiros é o seu dia a dia. Não há como esperar que um dia esta criança de apenas 5 anos desenvolva uma consciência do que é certo e errado se a única versão que ela conhece é o errado.

Ninguém deseja nascer na favela. Ninguém de bem quer viver num lugar onde o crime é a primeira ordem. Quem está na favela muitas vezes está contra a sua vontade. Faz ideia do preço de um aluguel no Rio? Das dificuldades e burocracia que uma pessoa emfrenta para alugar um apartamento? Não é fácil. Enquanto você disser que mora na favela quem quer, você está criando vítimas da sociedade, incentivando o ódio e o preconceito.

É vítima da sociedade que diz “foi assaltado porque deu mole”. Enquanto você, o seu vizinho, o seu parente, disser que alguém foi assaltado porque quis, pelo simples fato da pessoa ter um smartphone, um notebook, um carro esporte, etc, você está justificando para que o marginal roube.

Quando você diz que fulano foi pra Zona Norte e por isso está “pedindo” pra ser assaltado, você está dando autorização para o crime acontecer. Sinto lhe informar, mas ninguém pede pra ser assaltado. A Zona Norte do Rio, como também a Baixada Fluminense, são zonas como Copacabana, Ipanema, Leblon: moram pessoas de bem, trabalhadores, pessoas honestas. Pessoas que trabalham e querem comprar um carro, um relógio, um iPhone. Quem está na Zona Norte pede por uma cidade mais segura há muito mais tempo do que quem está na Zona Sul. E muitas vezes quem vive na Zona Norte já incorporou a “normalidade” de viver numa sociedade criminosa, afinal, é lugar de pobre. E enquanto você, quer seja da Zona Norte, da Baixada ou da Zona Sul, concordar com esta segregação bairrista, você estará sim justificando para que o marginal roube. Porque pra você é “normal” haver atrocidades na Zona Norte, desde que a Zona Sul esteja em paz.

Deixe de ser babaca. Deixe de ser hipócrita. O Rio é uma cidade única, onde quem está de fora tem o sonho de conhecer mas medo de se arriscar. Onde quem está dentro quer sair, fala mal, mas não faz nada pra mudar e bate no peito pra dizer “meu Rio de Janeiro continua lindo”.

“O político tal rouba, mas faz, por isso votei nele”. Quando você diz isso, você está concordando que é normal e aceitável roubar. Você está permitindo que o roubo aconteça, e pior! Está sendo conivente com o roubo.

O seu Rio de Janeiro é o que existe nas novelas de Manoel Carlos. O meu Rio de Janeiro é o que aparece no Tropa de Elite.

Mude o sistema. Mude a sua forma de justificar que os assaltos acontecem porque as vítimas pedem para ser alvos das vítimas (ou melhor: consequência) da sociedade que você destruiu.

Mude.

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3 comentários sobre “Vítimas da sociedade

  1. As pessoas têm que parar de culpar terceiros por seus atos. Devem erguer a cabeça, ir atrás de emprego, estudo e ajuda, e sim, o país oferece isso. Parar com o pensamento de ”sou uma vitima, me ajudem” e começar a pensar ”minha condição não é boa, tenho que fazer algo a respeito”.

  2. Vim retribuir a gentileza de quando comentou em meu Blog. Adorei o seu e esse texto é muito bom e atenta a uma realidade triste do Rio de Janeiro.

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