“Por que Portugal é maravilhoso?”

Essa foi uma pergunta feita por uma leitora, num comentário de um dos meus posts. Fiquei martelando isso por muito tempo. Sempre penso em sentar em frente ao computador (me recuso a escrever pelo smartphone) e falar abertamente sobre estas questões.

Obrigada, cara leitora Isabel, por me fazer estas perguntas. Refleti bastante. Sempre buscava uma explicação pra coisas que me colocou e uma resposta para “e então porque não estou lá?”. 

Além de ser sincera vou expor bastante informação pessoal, porque sem contextualizar pode soar incoerente (apesar de ainda sim muita coisa ter coerência só pra gente mesmo).

Por que fui morar na Inglaterra: sempre tivemos essa vontade. Na verdade, nossa ideia inicial era ir direto para Londres, mas achávamos que eu precisaria da nacionalidade portuguesa pra não ter problemas de residência em um outro país da UE. Quando passamos a nossa segunda lua-de-mel em Londres já tínhamos iniciado a burocracia pra dar entrada no pedido da minha nacionalidade portuguesa, e voltamos da terra da rainha com a ideia fixa de irmos embora pra lá (nos apaixonamos pela cidade), mas uma semana depois descobrimos que eu estava grávida e então fomos postergando, postergando… Quando o governo de Passos Coelho começou a pegar pesado nos cortes e isso afetou o trabalho, o ordenado e os projetos que meu marido fazia, queríamos garantir uma certa qualidade de vida pra nossas crias, e tivemos que tomar uma decisão: sair de Lisboa e ir pra uma cidade menor, voltar para o Brasil ou tentar um outro país? Analisando as possibilidades e as leis que nos amparam (não fazemos movimento sem amparo legal), descobrimos o “Article 10” do “Free Movement Rights”. Com a minha autorização de residência emitida sob o artigo 17 do SEF, eu tinha direito de ficar 6 meses em qualquer país da UE, desde que acompanhada do meu marido (=cidadão europeu), sem ter comprovação de renda (daí segue-se a exigência de cada país para emissão de vistos/autorização de residência). E começamos a pesquisar oferta de emprego, custo de vida, etc. Lógico que queríamos ir pra Londres, mas com duas crianças pequenas (um de 3 anos e uma de 6 meses), Londres é proibitivo. Pesquisamos muito e decidimos ir pra Manchester por ser uma cidade que fica no “meio do caminho”, entre o Norte e o Sul, 2h de trem pra cima ou pra baixo e estamos em qualquer lugar da Inglaterra. Daí meu marido recebeu umas ligações e teve umas entrevistas agendadas, e em três meses estávamos em Manchester. Infelizmente, nada foi pra frente devido ao contexto econômico e a ameaça do Brexit. Por isso tivemos que fazer um novo movimento. Ponderamos Suíça, Dinamarca e Irlanda – ou ainda o Porto, por ter um custo de vida mais baixo – mas por estar cansada dessa incerteza toda, e de ter os parentes próximos com bastante idade, meu pai com a saúde debilitada, Tuco ficando confuso com tanto vai e vem, voltamos para o Rio no começo de 2016.

Meu filho nunca teve amiguinhos fora dos portões da escola: Verdade. Nem na Inglaterra, nem em Lisboa, cidade em que ele nasceu e que, apesar de viver integralmente na cultura portuguesa (não éramos ligados a nenhum grupo de brasileiros ou cultura brasileira – exceto Vinicius de Morais, Toquinho, Caetano… e jogos do Botafogo porque meu marido é um torcedor fiel, tadinho… rs) era considerado o “brasileiro”. As pessoas são muito fechadas às suas famílias, no geral. Não existe grupo de WhatsApp de pais, nem lhe pedem para ser amigos no facebook. Mas isso não é uma questão de não sermos “dali” (porque eu, sinceramente, sou super dali), é uma característica cultural. Sendo ainda mais sincera, eu gosto de ter algum espaço, mas não precisava ser tanto, né? As educadoras do Tuco me adicionaram nas redes sociais e as tenho lá até hoje e elas sempre perguntam pelo “garoto” delas. São uns amores e foram muito carinhosas conosco todo o tempo. Na Inglaterra foi um pouco culpa nossa não participar de mais eventos sociais. Eu ia à missa sozinha, da vez que levei as crianças o Padre tentou enturmá-las, mas nunca mais as levei… e eu também não ia nos Family hubs no centro social.  Na escola, funciona tal e qual como em Lisboa. Saiu dali, cada um pro seu canto. Meu filho começou a fazer amizade meses depois com um menino muçulmano, chamado Mohamed. Ele também chegou lá sem falar nada, e o Tuco ajudou o Mohamed a se comunicar com as professoras. A mãe do Mohamed também não falava inglês, e até tentei puxar assunto umas duas ou três vezes, mas não passava do “hello / ok / thank you / how is your day “. Quando fomos embora de lá Tuco não sentiu falta nenhuma de ninguém e nem lembra do nome de nenhum colega ou educadora. No Rio eu fiz amizade com as mães da sala do Tuco, estou até agora num grupo de WhatsApp delas porque nos demos muito bem e faço votos de encontrá-las quando visitarmos o Rio. Mas mesmo assim, foram poucas as vezes que as crianças se encontraram fora do ambiente escolar, geralmente em festa de aniversário.

(Estar na idade que mais gostamos de) nos sentir acolhidos por parentes e amigos: ainda não cheguei lá, mas não acho que seja preciso pra sentir falta. Eu também queria ser acolhida por parentes e amigos quando eu tinha 10 anos. E quando fiz 18. E quando fiz 21. Fui super acolhida por muita gente antes de casar, mas depois do casamento, queremos ser acolhidos de novo e o que acontece? Cada um tem sua vida, percebemos que as pessoas têm as suas prioridades e nós não fazemos parte delas. Meus pais me criaram pro mundo, isso é fato.  Minha família é gigantesca e você sabe o que acontece quando temos uma família bem grande? Discórdias enormes. Meu pai foi acusado de roubo pelos irmãos (empresa familiar, meu pai era o braço direito do meu avô, irmão com ciúme, calúnias armadas), eu me afastei de todo mundo por causa disso, e mantive contato apenas com quem não levantou falso testemunho contra o meu pai. Um dos meus tios descobriu que era uma farsa e pediu desculpas para o meu pai. Voltou pra minha lista de afetos. Eu tinha, na época, 14 primos (nasceram mais depois). Devido à confusão, mantive contato com uns cinco. Os demais não fizeram falta. Dos amigos, antes de ir pra Portugal já tive uma certa indicação de quais eram mesmo verdadeiros. Depois que cheguei lá soube os que realmente eram. No meu primeiro aniversário em minha nova terra apenas SEIS pessoas me ligaram, incluindo a minha sogra. Eu, cheia de “amigos”, apenas 5 + a sogra ligaram pra mim? Nem o meu irmão, nem os poucos primos que mantive contato, nem o pessoal que fez festa de despedida quando saí do trabalho. Aprendi a viver com isso. As relações que julgamos ser tão especiais afinal, não eram assim tão importantes. Saí das redes sociais e comecei a receber e-mails perguntando se eu tinha me divorciado ou se tinha voltado pro Brasil. Ou seja, o interesse não era em saber se eu estava bem, mas se minha vida tinha dado errado. E daí então percebi que temos que valorizar apenas que há de real. O que vale são os afetos. Hoje tenho menos amigos, menos pessoas sabem da minha vida, dos meus sentimentos, dos meus planos. E continuo mantendo contato com as mesmas pessoas que mantive durante os 8 anos que vivi fora do Brasil mais as amizades que fiz em Portugal. A tecnologia hoje é melhor e mais acessível que há quase 10 anos (já tem quase 18 meses que estou de volta), e isso encurta as distâncias. Não é preciso estar próximo para estar perto e vice versa.

A violência que está no Brasil: na verdade, a violência não está em todas as cidades. Está no Rio (e Grande Rio), em Porto Alegre, em Vitória, em BH, em alguns pontos de São Paulo, muitas cidades do Nordeste. Aqui em Curitiba não ouço um tiro desde que cheguei. Posso andar na rua, parar no sinal, entrar por ruas escuras e pouco sinalizadas. Existe violência? É claro! Toda cidade grande tem. Eu sei que as chances de acontecer algo comigo são baixas. Não tão pequenas como em Lisboa. Lá era quase zero mesmo! Mas aqui em Curitiba, morando num bairro central, posso dizer que estou vivendo em paz e tenho garantido o meu direito de ir e vir, que a gente só sabe o que é quando deixa de ter – e no Rio eu perdi isso.

Deixar um pedaço nosso pra trás: eu só era filha quando fui embora, agora voltei sendo mãe também. E pelos meus filhos não vou mais imigrar até que eles completem, pelo menos, o ensino fundamental. Ambos são portugueses natos, nascidos lá, tem já as portas abertas pra uma infinidade de possibilidades no futuro (se as coisas se mantiverem na UE como hoje estão, o que eu duvido muito). Não sei se eu conseguiria deixá-los pra trás e seguir com a minha vida quando eles tiverem 21 anos. Ainda estou me preparando psicologicamente pra primeira noite longe de nós, acho demasiada responsabilidade deixar meus filhos com outra pessoa, mesmo que essa pessoa seja nada mais nada menos que a minha mãe LOL. Mas não sei mesmo como as coisas serão quando eles crescerem. Se eles terão emocional amadurecido pra enfrentar a vida, se terão condições de tocar suas vidinhas sem que papai e mamãe tenham que se fazer pre$ente$. Mas num cenário lindo, em que eles queiram alçar vôo, eu lhes darei uma pista de decolagem. E da mesma forma voarei. Se ambos quiserem estudar fora, farei de tudo para que consigam realizar os seus sonhos. Sempre me pergunto como seria se tivéssemos voltado pra Portugal, ou se tivéssemos ido pra Irlanda. Gosto bastante de Curitiba, mas não me sinto ainda parte daqui. Tenho imensas saudades de Lisboa, mas tanta que às vezes dói, e mato um pouco as saudades vendo programas de TV lusos, ouvir música lusa (Tiago Bettencourt, recomendo fortemente), ou a falar com os amigos que lá fiz, alguns nem mais pra lá estão. No sábado último fui tomar café num lugar super agradável perto da escola dos meus filhos e ao meu lado tinha um casal de portugueses. Ouvi-los a falar, no cenário em que eu estava foi um pequeno teletransporte para a minha linda Lisboa. Saí de lá com a alma alimentada e ouvindo música portuguesa. Quando me dói a saudade e afago meu coração, ponho-me a vislumbrar minha cabeleira branca, minhas mãos com as pintinhas da velhice, meus filhos cada um pra um canto realizando seus sonhos, meu marido a ver programas de discussão política local, e nosso cão dormindo ao nosso pé, e eu sentindo o cheiro das madeiras em brasa na lareira num entardecer. Eu poderia viver isso em qualquer lugar, é claro, e as crianças que apareçam na quadra natalina rsrs
(NOTA: deixo claro que essa é uma simulação do meu imaginário de uma realidade perfeita, sem dificuldades, estilo novela de Manoel Carlos, cujo cenário é o Parque das Nações, numa daquelas casas de frente pra marina, afinal, sonhar ainda é de graça). 

Porque penso em voltar para um país que transmite tanta frieza quando eu estiver aposentada: Eu fui feliz lá. Vivi 28 anos no Rio de Janeiro e não consigo associar momentos felizes ao Rio. A cidade em si não mudaria em nada o que eu vivi, poderia ter se passado em qualquer lugar. Além disso, eu não me identifico com o estilo de vida do carioca da minha geração. Não me identifico também com o estilo de muitos lisboetas de várias gerações, mas a cidade em si me proporcionou momentos felizes. Me senti parte daquilo. Por exemplo, fui a um desfile de 25 de abril e me senti parte dali, como nunca me senti antes num 7 de setembro no Rio. No dia de Camões visitei o Palácio de Belém, que é a residência oficial do Presidente da República, que fica aberta ao público para as comemorações, e me senti muito acolhida. Um ambiente familiar dentro de um lugar político. Amei viver isso! Mais do que me sentir parte de Lisboa, Lisboa faz parte de mim. Gosto do jeito galhofa, de estar à vontade sem ninguém estar à vontadinha. Ninguém se convidava pra ir à minha casa, ninguém pedia meu numero de telemóvel ao bater uma hora de papo, seja no trabalho, no metro ou no comboio. As pessoas são mais reservadas e passas a entender melhor a cabeça de um português quando percebes que “as minhas cenas” é um território proibido de se entrar, e nem mesmo o mais íntimo dos familiares pode ter acesso. Eu também tenho essas “cenas” e me sentia incomodada quando muitos batiam à porta desse território. Na sociedade portuguesa respeitam quando dizes “hoje não estou bem”, complementando no máximo com “se eu puder fazer algo pra ajudar-te, diz-me”. Não sei se sou justa dizendo que são todos frios. A sociedade é, mas as pessoas ao redor, não. Vivi lá por 7 anos, minha cabeça mudou muito em 7 anos. Sei que saí de Lisboa já com saudades e nunca sofri tanto por um lugar como sofri ao deixar a terra que eu escolhi como minha. Não tenho amor pelo Rio. Tenho carinho por Manchester. Tenho paixão por Lisboa. E agora, em Curitiba, estamos começando uma relação de afeto bem positiva 🙂

E finalmente, a resposta para “Por que Portugal é Maravilhoso?”: Porque lá eu realmente vivi. Eu pude ir e vir. Sofri preconceito e pela primeira vez não tive medo de responder à altura (no Rio já tive meu cheque negado em uma loja de roupas do Rio Sul porque meu endereço era de Vaz Lobo e passei uma vergonha tão grande que nunca mais voltei à loja). Porque não tenho medo da polícia. Porque tenho as estações do ano definidas. Porque pegamos a estrada e estamos em 2h30min no Porto, 1h em Nazaré, 25min em Cascais. Porque as sardinhas em junho são as mais maravilhosas. Porque o caminho de comboio na linha de cascais, às 7 da manhã, com o sol nascendo sobre o Tejo, a caminho do trabalho, dão um outro sabor ao dia que iremos enfrentar. Porque sabe bem ouvir “se faz favor”, “obrigado”e “ora essa”. Porque o céu é super azul. Porque amo estar um país recheado de história e ela ser acessível a todos. Detesto os azulejos e as pedras portuguesas, mas amo a arquitetura manuelina e barroca. Porque adoro a história de Pedro e Inês. Porque adoro caminhar pelo Rossio, beber um perna de pau e andar até ali onde tem as ginjas e pedir uma sem elas. Porque as tardes de verão são deliciosas na relva do Parque das Nações e nossos piqueniques são maravilhosos apenas por estarmos ali. 

Desculpa se alguma opinião pessoal minha possa parecer ofensiva a alguém, mas elas refletem a minha experiência unicamente, e escrevi tudo de coração aberto.

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Um comentário sobre ““Por que Portugal é maravilhoso?”

  1. Obrigada por esta linda homenagem a Lisboa!Eu sou alfacinha de gema mas desterrada na Europa e cada vez que volto da minha terra sinto como Portugal e a minha casa onde deixo sempre o meu coracao apesar da vida aqui num pais bem desenvolvido ser tao mais facil!
    Um grande abraco
    Ana Silva

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