Retornar a Portugal

Resumo para quem chegou agora aqui pelo BanhoDeChuva: prazer, me chamo Carol, casei em 2006, fugimos da violência carioca em 2008, destino Lisboa, criei esse blog, tivemos um cão, dois filhos, perdemos o cão, em 2015 fomos pra Manchester, deu tudo errado, em 2016 voltamos pro Rio, arrependimento imenso, em 2017 tentamos fixar raízes em Curitiba e o coração não sossegou até voltarmos para o lugar que mais amamos no mundo no final de 2019.

Mas por que, Carol?

É… gostaria de ter mais dificuldade em responder isso, mas foram tantas motivações que até me assusto ao me dar por isto. Enumero abaixo as razões que se acumularam, não que elas tenham acontecido exatamente nesta ordem:

  1. escola absurdamente cara no Brasil, impossível ter criança por 4h na escola e trabalhar fora. E eu trabalhava, coloquei criança no período integral, foi ruim pra eles, foi caro demais pra gente, ou seja, só prejuízo.
  2. salários baixos, mas tão baixos que desanima qualquer pessoa. Não consigo trabalhar 40h/semana e ter um salário que consiga pagar escola + condomínio + despesas de água/luz/gás/internet/comunicação. Cortamos no que podíamos, TV a cabo já não usávamos, e na verdade nem sei porque isso existe ainda (um grande viva para as plataformas de streaming!).
  3. violência começando a surgir com mais ênfase em Curitiba, descontrolada no Rio, e no restante do país nem vou comentar. O bairro que eu morava era bem seguro, mas já aconteciam casos de violência urbana, e quando comecei a ficar com receio de usar o telemóvel na rua senti ameaçado o meu direito de ir e vir, que tanto valorizo.
  4. sociedade brasileira com valores opostos ao que eu acredito ser ideal para criar duas crianças. Não vou alongar este tópico, começa com a defesa do livre armamento dos cidadãos e termina com ele não.
  5. saudades do cheiro de castanhas a assar, do por do sol na boca do inferno, das festas dos santos populares, de uma imperial com uma bifana, de pisar numa cidade histórica e me sentir parte dela, do céu azul de Lisboa (sei que os uruguaios são o povo celeste, mas o céu de Lisboa deveria ser o nome da Pantone 299C).

Não está a ser fácil. Nos nossos planos não havia uma pandemia no meio do caminho da readaptação, não conseguimos de imediato escola para as crianças (ano letivo já havia começado), tivemos que matriculá-los numa escola privada (e me arrependo imensamente de os ter exposto a essa experiência), dificultou nossas perspectivas de trabalho e, principalmente, a adaptação das crianças com a sociedade onde eles nasceram.

A economia aqui está diferente em alguns aspectos, o custo de moradia está muito mais elevado do que quando saímos, as despesas de casa continuam mais ou menos as mesmas, o supermercado eu acho que está ligeiramente mais caro, mas entretanto o salário mínimo também aumentou ligeiramente (quando saí de Portugal estava em 505€, agora são 635€, em vias de aumentar).

O transporte em Lisboa e região está melhor e mais económico. Existe agora um passe mensal chamado Navegantes, em que pagamos 40€ e podemos viajar o mês inteiro, quantas vezes quisermos, por 18 concelhos da região metropolitana de Lisboa, usando qualquer transporte: eléctrico, metro, barcas, comboios, autocarros.

O mercado de trabalho está diferente de 2015 (no mundo todo, é claro), os idiomas que falo não são mais o suficiente, meus conhecimentos informáticos (não são poucos ou limitados ao office) não trazem mais nenhum diferencial, e por eu ter um perfil generalista sempre travo no quesito “mínimo de X anos em funções semelhantes” (caso engraçado: vi uma vaga pedindo 5 anos de experiência num sistema que existe há 3 anos). Não sou a favor de “panfletar” currículo ou me candidatar a qualquer coisa que apareça (tenho imenso respeito pelo recrutador e por mim) portanto, não há eufemismo quando afirmo que enviei no máximo 10 candidaturas desde que cheguei.

A sociedade está mais diversificada, muitos estrangeiros vivem por Lisboa e arredores comparativamente com o que eu percebi na década passada. Só vejo vantagens: temos uma diversidade maior de produtos no mercado (habemus salami!), serviços e, principalmente, gastronomia. Acho que esse era o único quesito que Lisboa perdia pontos no meu raking de melhor cidade do mundo, e agora é hors concour.

De fato estarmos numa pandemia afetou diretamente aquilo que eu imaginei que viveria neste capítulo II da minha história em Portugal, e apesar de hoje sermos o local com piores números de contágio, não me imagino em outro sítio. Estou muito feliz em estar de volta.

4 opiniões sobre “Retornar a Portugal”

  1. Olá, Carol, tudo bem?
    Meu esposo e eu estamos dando entrada no visto de rendimentos para tentar ir pra Portugal ainda este ano.
    Embora pesquisemos bastante sobre mercado de trabalho por aí, não temos uma noção real de como está a situação.
    Vc poderia me falar algo a respeito, por gentileza? Obrigada 😘

    1. Olá, Denise! Tudo bem?
      Com a pandemia não está como há dois anos.
      Mas algumas áreas de atuação ainda têm bastante oferta.
      Pode consultar no LinkedIn, Indeed, Net Empregos e Sapo Empregos.
      Muitas das ofertas se repetem nestas plataformas.
      Se quiser conversar em privado sobre o assunto, escreve no formulário “fala que eu te escuto” ou me envia um email: blogbanhodechuva@gmail.com

      Abraços,
      Carol.

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