Todos os artigos de Carol Mourão

Mulher, quase 40, casada, coração verde e vermelho, mãe de duas crianças maravilhosas, não fumante, sem tatoo ou piercings (nada contra, só não tenho vontade), antifascista, prochoice, bilíngue, espanhol quase lá e iniciando o francês, pedagoga, curiosa, que ama pets e cozinhar comida gostosa e saudável (= sem ultraprocessados). Nasci e cresci no Rio, evolui em Lisboa, aprimorei em Manchester, me redescobri em Curitiba e agora retornei para o lugar onde meu coração pulsa mais feliz: Portugal.

Uma carta para minha filha

Eu não tive vontade de escrever uma carta para o seu irmão. Mas essa noite, depois que te dei a mamadeira da meia noite, e que pela primeira vez desde que tinha dois meses você encaixou a cabeça no meu pescoço pra dormir, eu me senti tão completa e tão feliz e essa vontade inexplicável de escrever pra você despoletou em mim.

Eu vou te apoiar, minha filha. Eu vou te apoiar em tudo o que você quiser fazer.

Vou te orientar, mas principalmente, prometo estar atenta a você e a te dar o empurrãozinho que você precisa pra realizar os seus sonhos. Os seus pés me dizem que você vai ser bailarina, mas os seus gritos me dizem que você vai ser soprano, e quando você aperta a minha mão… algo me diz que você vai ser judoca.

Independente de qual (ou quais) destino(s) que você escolher, eu vou te apoiar. Ser mulher, hoje, em 2015, é mais fácil do que era em 1985 e ainda assim é difícil. Tudo o que você fizer hoje a sociedade vai querer dar a sua opinião. A sua orelha ainda não é furada e algumas pessoas acham que por isso você é um menino (e também porque eu não te visto com cor-de-rosa e lilás dos pés à cabeça) mas eu não ligo. Porque não é uma cor que te define, não é um acessório que te define. E é isso que eu quero que você saiba: ninguém ou nada te define, a não ser você mesma.

Pode ser que no futuro você seja apaixonada por cor de rosa e por Barbies, ou por azul e trucks, mas saiba que eu nunca te influenciei a isso e tudo será estritamente escolha sua. Eu sempre coloquei e colocarei a sua disposição todas as cores do arco-íris e deixarei você escolher a que mais gosta.

Não irei furar as suas orelhas até ser você a decidir que quer isso. Não vou te submeter a nenhuma dor desnecessária por ser uma exigência da sociedade. A vida já nos faz sofrer tanto, pra que incluir mais uma dor sem ter que pedir por ela, sem saber que estás preparada pra isso?

Não vou te encher de bonecas ou fazer lavagem cerebral em você para gostar dos ursinhos carinhosos, ou dos Little Ponies. Nem da Sofia the First, ou da Doc McStuffins. Ou da Barbie!

Vou te dar o sistema solar, a flora e a fauna, as formas, as cores. Vou te dar todos os sons (apesar de eu adorar a música de Frozen não vou limitar a isso o seu aprendizado musical), todos os instrumentos.

Vou te dizer, de forma imparcial, o que é socialismo, comunismo e democracia, e você vai decidir em que acreditar. Mas, principalmente, vou te ensinar a lutar pelo que você acredita.

Vou te mostrar o que é o amor incondicional, vou te contar como conheci o teu pai e te dizer como é bom ser amada e poder retribuir esse amor sem medo.

Irei, se Deus quiser, te mostrar os lugares que mais amo no mundo, os paladares mais agradáveis e permitirei que você viva suas próprias experiências e defina os lugares que você mais ama, que crie as suas memórias.

Te darei a praia, a serra, a neve, o campo. E você vai descobrir qual você gosta mais.

Brigarei contigo quando estiver chorando por alguém que não merece as suas lágrimas, se estas estiverem correndo pelo seu rosto por mais de 24h. E farei isso pra te mostrar que você é mais forte que tudo e que todos e estarei do seu lado sempre que precisar. Porque somos mulheres de fibra e esse mundo precisa de mais pessoas como eu e como você.

Acima de tudo, vou sempre te amar. Você existe dentro de mim há 20 meses, mas há apenas 10 meses que eu ouço a sua respiração e vejo o seu olhar. E o seu olhar… é o mais lindo e mais terno que já existiu.

Esse pedacinho de gente, projeto de mulher, vai ser um feito e tanto no futuro. E eu vou estar com você. Sempre. Longe ou perto, vou estar com você.

Siga o seu coração. Siga a sua intuição. Vou estar sempre segurando a sua mão e você nunca vai esquecer de quanto a sua mãe te ama.

Seja feliz. Porque é assim que você me faz.

The britishness

Na primeira vez que estivemos em Londres, em 2011, assistimos na TV um programa tipo o do Conan O’Brian, só que britânico. Não tenho certeza qual, mas pelo que andei pesquisando na internet era o BBC Breakfast.
O entrevistado no dia era o ator Paul Bettany, e ele provavelmente estava promovendo um filme recém lançado, e então lhe perguntam se está gostando de viver em NY. Ele responde que gosta da cidade, NY é fantástica e é impossível não gostar de lá estar, mas… ele sente falta de estar na Inglaterra. E ele diz: “I miss the pubs. I miss the britishness“.

E eu, naquele momento, mesmo estando em Londres há apenas 3 dias, entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Tenho a certeza que se eu não estivesse ali, experimentando a “britaneidade“, acharia que era papo de quem tá sofrendo alguma espécie de banzo.

Veja bem, eu sempre gostei de Lisboa, mas não tenho como mentir: é difícil se envolver rapidamente com as pessoas. Com a cidade, ok, foi um instante! Mas com os lisboetas foi mais difícil e meus posts passados relatam essa particularidade.

Bastou pouco tempo em Londres da primeira vez para sentir que as pessoas são o segredo da cidade ser o que é. E agora em Manchester eu tenho sentido cada vez mais o britishness, e passo a exemplificar.

Fomos ao Heaton Park há duas semanas, caminhar e dar comida aos esquilos. A meio da caminhada uma moça com três cães passava mais ali ao longe e um deles vem em nossa direção. Eu, que não preciso explicar como sofro por não ter mais os meus, me derreti toda e perguntei se a dona permitia que eu fizesse carinho nele. Ela disse: “porque não haveria de deixar?”, e começamos a conversar.

Foi mais ou menos meia hora de papo, caminhando lado a lado com uma completa desconhecida, ultra simpática. Falamos de filhos, de cães, de vida no estrangeiro (ela já morou nos EUA), e na hora que iríamos seguir para o lugar que fica a Scurry (colônia de esquilos), ela perguntou meu nome e disse-me o dela e perguntou se costumávamos ir ao parque. Eu disse que sim e ela completou: “se nos vir por aqui, levante a mãe e nos dê um olá”.

Isso é britishness.

Certa vez, no Tesco e,como toda boa dona de casa, dei uma geral nos preços dos itens que pesam mais no orçamento, pra ver se tinha alguma promoção que compensasse levar naquele momento. E vejo isso:WP_20150910_003

Fairy é uma marca de produtos de louça e os tabletes para máquina de lavar estavam em promoção. Mas se você observar bem, dentro da caixa tem um papel branco de desconto, que foi deixado por alguém que não ia usá-lo. Quem não precisa não pega, porque algo que não vi aqui ainda é espírito de porco. Mas certamente alguém precisou e usou o respectivo desconto de £1,50 (que acumularia sobre o 50% de desconto da etiqueta da prateleira) porque antes de eu ir embora já não estava mais lá o cupom e também tinha uma unidade a menos de fairy.

Isso é britishness.

Como vamos semanalmente ao mercado, por mais que nos policiemos para falar inglês o tempo todo, às vezes sai  entre a gente um diálogo em português. E já fomos parados três vezes por pessoas no mercado, que identificaram a nossa língua e puxaram assunto. Um disse que tinha amigos portugueses e reconheceu a língua, outro tinha reconhecido a língua e comentou que já esteve no Rio e em Portugal, e uma terceira pessoa não identificou, mas ficou curiosa e interessadíssima na nossa cultura e como é que aprendemos a falar inglês. Essa então foi engraçadíssima, disse “nós ingleses somos muito preguiçosos, não acha? todos aprendem a nossa língua e ficamos aqui na nossa zona de conforto sem aprender a língua de ninguém”.

Além da simpatia existe uma diferença brutal entre ser estrangeiro em Portugal e ser estrangeiro na Inglaterra. Em Lisboa meu filho sempre foi tratado por “o brasileiro” (algumas pessoas o tratavam assim de forma carinhosa, eu sei) mesmo ele sendo português nato, enquanto aqui ele é apenas o menino de olhos castanhos que gosta de Beatles. As pessoas aqui na Inglaterra querem que você fique e torcem pra que tudo dê certo (“I hope you’ll enjoy the city and stay with us for a long time!”). Torcem para que daqui a uns tempos (10 anos) já tenhamos a cidadania britânica em mãos, ou seja, querem que façamos parte da nação.

Isso é britishness.

Pessoas cedem o lugar em transporte público, cedem lugar na fila do mercado se você tem poucos itens ou se tem uma criança pequena (não estou falando de caixa preferencial!), abrem a porta de um estabelecimento, te tratam por “love” quando perguntam algo (por exemplo, uma senhora chegou depois de mim no ponto de ônibus e me perguntou “has the X43 already arrived, love?”). Estranhos conversam conosco como se fôssemos conhecidos há tempos, mas não troca-se intimidades, apenas papo corriqueiro sem pretensão nenhuma.

Isso é britishness.

Quando entramos e saímos do ônibus é normal cumprimentar o motorista. Mas não é “hi” ou “good morning/afternoon) apenas. É algo do tipo “olá, como está o seu dia hoje?”. E na hora de sair nada mais agradável do que ouvir “cheers”.

Isso é britishness.

E o senso de humor dos britânicos é algo indescritível. Nothing better than britishnes to cheer you up. Se um dia tiver a oportunidade, feel the britishness. E se já teve a oportunidade, conta pra gente: did you feel the britishness?

Alugar (arrendar) um apartamento em Portugal

Tenho recebido algumas mensagens com dúvidas sobre este tema e resolvi compilar a informação num post. Antes, pra entender a nomenclatura e jargão usados nos anúncios, dá uma olhada nesse post aqui: Morar cá – Parte técnica.

Agora ao que interessa: fiador ou não fiador?

A resposta é: depende.

Primeiro que existe sim um preconceito contra o sotaque brasileiro. Quando ligávamos para os anúncios e ouviam o sotaque a primeira coisa que diziam é que não estava disponível. Para conseguirmos a nossa primeira (e única) visita, meu marido fez sotaque de português no início, perguntando se estava disponível. Quando a senhora que nos atendeu disse que estava, ele começou com o sotaque carioca e ela não teve como voltar atrás.

Quando fomos visitar o apartamento ela confessou que já tinha negado para outros brasileiros na mesma semana, mas nos explicou o motivo: a inquilina anterior dela era brasileira e roubou as almofadas, o microondas, danificou a pia da cozinha e deixou um aluguel em atraso. Então ela fez juízo de valor e achou que era uma questão cultural.

Infelizmente, este preconceito existe. E não é raro de encontrar.

Com a nossa primeira experiência em arrendar, a proprietária queria fiador. Explicamos que não tínhamos ninguém em Portugal, apenas no Brasil. Mas que entretanto, como sinal de boa fé, adiantaríamos 3 meses de aluguel.
E boa fé quando significa dinheiro no bolso é sempre muito bem visto, principalmente quando é tratado diretamente com o proprietário.

Aquela era a casa onde ela criou os filhos, então ela tinha mesmo muito carinho por aquele apartamento, bem como tinha também muitos vizinhos amigos que ficavam de olho na gente. E todos falaram maravilhas sobre nós, e que a deixou super despreocupada. Nunca atrasamos um dia o pagamento da renda, então além de despreocupada, ela ficou feliz.

A parte ruim desse acordo é que o contrato não estava registrado nas finanças, portanto, eu não podia declarar no IRS, pra aumentar a nossa restituição…

E depois de viver lá quase dois anos, encontramos um outro apartamento, que pertencia a uma empresa. Na verdade era o edifício inteiro que pertencia a tal empresa, que era a construtora do respectivo.

Eles denominaram uma imobiliária pra tratar das questões administrativas (terceirizaram tudo, desde o arrendamento até a manutenção) e também não tivemos que apresentar fiador, mas tivemos que apresentar nossos contratos de trabalho,  nosso último IRS e os recibos de vencimento (contra-cheque) mais recentes.
Tivemos que desembolsar um mês na frente e um mês de caução. Quando mudamos para outro apartamento no mesmo prédio, foi também tranquilo. Tudo dentro de casa, então fizemos os acertos dos valores de caução e pronto. Mudamos para um apartamento maior.

Como estes dois ultimos contratos nesse prédio estavam registrados nas finanças (e eles emitiam fatura do aluguel pago) o total que nós conseguimos restituir no IRS era quase um mês de aluguel (isso pra nossa realidade de despesas x receitas x imposto retido).

O tempo de contrato padrão é de 5 anos, mas pode ser acordado entre as partes para um menor período.

Dica de ouro: Tenham em atenção a estrutura do apartamento. Se for mobiliado, confirme se a mobília é a que está nas fotos. Se for de piso frio (cerâmica, porcelanato, por exemplo) pergunte sobre o aquecimento e isolamento da casa. Os vidros duplos são ótimos pra isolar o frio. Pergunte se tem os estores funcionando (e quando for visitar, teste-os todos!!!). Apartamentos com cerâmica na parede são um gelo no inverno, e por vezes escondem umidade e infiltração nas paredes (ou seja, mofo). Ponha a mão na parede e sinta se tem umidade.  Não pense que não faz diferença 50€ no aluguel algum destes detalhes. Aquilo que vc economiza no aluguel, você gasta na energia elétrica e na compra de equipamentos como aquecimento a óleo, desumidificador, purificador de ar…

Eu recomendo fortemente pesquisar apartamento no Casa Sapo, pra terem uma noção de localidade, preço, descrição.
E nunca faça negócio sem ter visitado o apartamento.

Existem muitos esquemas pra passar a perna, e por mais que algumas pessoas pareçam super bem-intencionadas  jurando de pé junto que são pessoas sérias, e que não estão aqui pra brincar com ninguém, e que pode confiar… simplesmente não confie.

Se o apartamento estiver muito barato e for muito bonitinho, tem pegadinha nisso aí… Ou é ruim de transporte, ou tá cheio de problema técnico, ou a vizinhança é uma bomba (em cima de buteco, gente bêbada, bairro de comportamento anti-social, etc).

Portugal é lindo, Lisboa em especial é fantástica, quase não existem lugares violentos, mas tem lugares que são um primor pra ser palco pra barraco. Vizinho discutindo com outro pela varanda, mulher gritando com homem no meio da rua (e vice versa), pessoas que têm problemas de audição e colocam o som do carro nas alturas, embaixo da sua janela, tocando uma música indecifravelmente irritante, etc. É a isso que me refiro quando digo que a vizinhança é uma bomba.

Desconfie, investigue, pergunte. Peça mais fotos. Peça pra visitar. Pergunte sobre a redondeza e pesquise sobre ela no google.

Não conheço Portugal todo, conheço um bocado de Lisboa, então se tiver alguma dúvida sobre alguma área em específico, ou se quiser tirar alguma outra dúvida sobre este tema, fala que eu te escuto 🙂

Falando em realidade: Portugal e salários nos dias de hoje

Uma das maiores diferenças entre Brasil e Portugal é o nível de inteligência da discussão política.
Antes que você ache que este post é uma chatice, pense que enquanto uma sociedade levar a política na brincadeira não há como ter políticos que levem o país a sério.

Existe um programa que gostávamos de assistir na Sic Notícias, que se chama Eixo do Mal.

É uma mesa quadrada (em ironia às mesas redondas) com a opinião de Daniel Oliveira, Clara Ferreira Alves, Pedro Marques Lopes e Luís Pedro Nunes. Um tema é lançado pelo mediador (que antes era de Nuno Artur Silva, e agora é por Aurélio Gomes) e os quatro comentadores (sim, o programa é português, por isso não são comentaristas) dão as suas opiniões baseadas em suas linhas políticas: Esquerda, centro esquerda, centro direita e direita.

Parece uma coisa chata e que dá sono, mas não é. Eles são mesmo muito bons e falam de coisas sérias, no melhor do mau humor português. No final deste post linkei o vídeo pra um episódio, vale a pena ver.

Todos estes comentadores têm colunas fixas nos grandes jornais e, apesar de eu gostar muito da forma de pensar do Daniel Oliveira, o Pedro Marques Lopes escreveu esta semana um texto no Diário de Notícias que eu acho super válido partilhar aqui.

Muitos têm me perguntado sobre a vida em Lisboa, os salários, custo de vida, e principalmente, o porque eu saí de Portugal.
A resposta para a última questão é: baixos salários. E este texto explica isso, além de fazer refletir sobre o descaso dos eleitores nas questões sérias.

O texto original está aqui, e o transcrevo abaixo.

Talvez a culpa seja sua
por Pedro Marques Lopes

No meio das polémicas que têm animado a pré-campanha eleitoral apareceu uma notícia sobre os salários dos trabalhadores portugueses. Segundo o Ministério da Economia, cerca de 20% dos portugueses que trabalham ganham hoje o salário mínimo (505 euros). Em 2011, eram 11,43% (485 euros). Ficámos também a saber que a remuneração média baixou no mesmo período 2,5%, ou seja, foi reduzida de 971,5 euros para 947 euros.

As conclusões são simples: apostou-se em salários baixos para aumentar a competitividade e grande parte dos postos de trabalho que se conseguiram criar (ainda estamos muito longe de recuperar o emprego que foi destruído) são agora mais mal pagos.

Convém sempre lembrar que um homem ou uma mulher que trabalham continuam pobres isso vai contra todos os valores, todas as convicções da sociedade que nos propusemos construir; que um dos princípios fundamentais da civilização europeia é a maior valorização do trabalho face aos outros meios de produção (tenha-se uma visão que tradicionalmente se aproxima mais da direita ou da esquerda europeia); que o conceito de salário mínimo nasceu exatamente para garantir que quem trabalhasse tivesse não só a sua subsistência mas também a sua dignidade assegurada.

Por outro lado, acho que nem ao mais feroz liberal ocorreria que se pudesse criar valor através do preço, ou que uma aposta em salários baixos seria sustentável a médio prazo. Tentar melhorar a nossa baixíssima produtividade através do custo do trabalho é apenas um disparate. Sem melhor formação, sem melhores meios tecnológicos, sem mais qualidade de gestão, sem mais aposta nas qualificações, o destino será inevitável: cada vez menos produtividade, e cada vez mais parecerá impossível não ir baixando sistematicamente os salários.

Mas, como é claro e reconhecido, a aposta política foi a de ganhar competitividade baixando os salários, e assim empobrecer os trabalhadores. No entretanto, destruíram-se milhares de postos de trabalho e abandonaram o país 485 mil pessoas em idade de trabalhar. Por outro lado, baixando o IRC valorizou-se o capital, tentando que uma maior remuneração dos investimentos gerasse mais emprego e mais disponibilidades para as empresas. É uma estratégia. Respirando fundo e munindo-me de todo o otimismo possível, imagino que o governo e os iluminados dirigentes europeus pensem que este caminho terá bons resultados. Que a conclusão deste processo resultará numa subida generalizada de salários, de descida da carga fiscal, de regresso dos nossos jovens, na melhoria da produtividade. O problema é que penso que este trajeto não tem estrada de regresso, que quando mais se percorre essa via mais improvável é o retorno, que o mais certo é o empobrecimento ir-se agravando. Mas isso é só a minha opinião.

Agora, pergunta-se, que discussão teria mais sentido nesta campanha eleitoral? A desta mudança estrutural na nossa comunidade, a de sabermos porque cresceu tanto o número de pessoas que levam a miséria de 505 euros para casa por mês, ou se um número dois de um projeto político deve comparecer em debates?

Alguém ouviu uma palavra que fosse sobre o primeiro assunto da boca dos principais líderes partidários, ou passou-se o tempo a discutir patéticas propostas de debates? Sim, o estudo do Ministério da Economia foi pouco divulgado. É verdade, os media (exceção ao DN) não lhe deram importância. Mas não é aos políticos que cabe discutir política? Ou há quem já esteja a culpar o mensageiro por ele não transmitir a mensagem que interessa?

E você, cidadão, que se fartou de pôr likes nos cartazes disparatados, que retweetou as piadas sobre os debates, acha que pode culpar os media por não falarem do fundamental? Acha que pode criticar os políticos por eles não falarem de assuntos cruciais para a sua vida e, depois, nem sequer se preocupar em saber porque cresceram tanto os seus concidadãos que apenas ganham o salário mínimo ? Não foi você que preferiu umas viagens pelos spins dos agentes provocadores nas redes sociais e embarcou na onda de falar de tudo menos do que importa?

Talvez os media se estejam a focar demasiadamente em fait-divers, e não tenho dúvidas de que os políticos não estão a falar do fundamental, mas, que diabo, se somos nós os primeiros a não querer falar, a não querer discutir questões básicas para nossa vida, para a nossa comunidade, que autoridade temos para exigir que nos esclareçam? Ainda somos nós que lemos os jornais que queremos, que escolhemos as televisões que vemos, que sintonizamos as rádios que gostamos, que comentamos o que queremos nas redes sociais.
Antes de criticar a qualidade do debate público lembre-se de si. É você que tem de a exigir e de ser também o primeiro a contribuir para que se fale do essencial. É que é sempre você que sofrerá as consequências.

Primeira missa… em Inglês

Apesar de ser católica e me considerar muito devota da minha fé, tenho que confessar que desde que saí do Brasil fui pouquíssimas vezes à missa. Não sei dizer o motivo, mas das poucas vezes que fui à Igreja em Portugal, me sentia desconfortável, como se eu fosse um bicho esquisito entrando ali. Moça jovem, igreja cheia de velhinhos, ninguém nunca tinha me visto e me olhavam com uma cara…

Eu, na casa de Deus, e sendo apontada? E as velhinhas beatas se sentindo donas da paróquia, puxando saco do santo Padre…

Mesmo morando em Lisboa acho que fui mais vezes à missa em Fátima. É um lugar de paz, cheio de energia boa. Recomendo pra qualquer pessoa de qualquer fé, mesmo que não a católica. Os jardins atrás do templo são mesmo uma paz.

Chegando em Manchester, descobrimos que nosso filho tem prioridade em algumas escolas católicas por ter sido batizado. E são geralmente as melhores escolas públicas. Então eu não me sinto confortável em colocar meu filho numa escola católica que fica a 6 minutos a pé da minha casa e não frequentar a igreja, que fica do lado da escola.

Então hoje fui eu, para a minha primeira missa em inglês. ourladyofdolours
Por estar super enferrujada na Liturgia, e não fazer ideia de onde estamos no calendário litúrgico, eu me perdi na missa. Não sabia mais muita coisa. Tentei forçar a minha cabeça pra associar os ritos, a consagração do Corpo de Cristo, etc. Consegui um pouco, e acompanhei a missa com as “falas” em português. Bem, Deus não se importa, afinal, é Deus, né?

Vou pesquisar a liturgia em inglês e em português, fazer uma “colinha” e levar pra próxima missa, assim eu interajo mais.

Mas isso é o de menos. Meu coração estava lá, e eu me senti tão bem, mas tão bem, que fiquei triste quando a missa acabou.

O Padre com semblante tão de paz, as poucas 15 pessoas que estavam lá assistindo a missa também tinham um ar de paz.

Não comunguei porque não estou apta. Anos sem ir a missa e ainda no direito de receber o Corpo de Cristo? Minha consciência não permite. Na verdade lembrei da minha avó me olhando na missa como quem perguntava “está devidamente preparada?”. Por isso, preciso me confessar primeiro.

Pra muitos não faz sentido isso, mas foi a educação que eu recebi.

A comunhão aqui não é somente o Corpo de Cristo, mas também o “sangue”. E eu fiquei boba ao ver que TODOS na igreja bebiam da mesma taça. Tinha lá um paninho pra limpar a parte em que a pessoa anterior encostou, mas jura? Todo mundo ali metendo a boca no mesmo cálice? Será que é obrigado a receber o sangue? Fiquei curiosa mas ao mesmo tempo achei meio anti-higiênico…

Pra além de ter me sentido em paz e confusa com a partilha do vinho, achei bem interessante as leituras e a homilia.

A primeira leitura foi do livro de Rute, de quando ela saiu de Judá com o marido e filhos, e quando depois de viúva e de ter perdido seus filhos, foi morar com a nora em Belém.
A segunda leitura foi de um salmo que diz: ” o Senhor ama aquele que é justo. É o Senhor quem protege o estrangeiro.”

E o Evangelho falou sobre quando peguntaram a Jesus qual o maior mandamento.

Na Homilia o Padre falou genericamente sobre isso e ressaltou os dois grandes mandamentos, dizendo pra esquecer o antigo testamento. Agora temos que concentrar no que o novo testamento diz.

E nas preces da comunidade, ele não leu nada em lugar nenhum. Pediu que as pessoas dissessem em voz alta suas preces ou caso quisessem, que fizessem suas preces silenciosas. Fiz umas 15, pode?
Quando as duas senhoras falaram as preces, o Padre complementou com outra. Pediu que todos lembrassem do mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Usou a palavra “vizinho” no lugar de próximo, e ressaltou quem são os vizinhos: as pessoas que passam por nós na rua, os enfermos, as pessoas que estão a procura de emprego, os imigrantes que tentam uma vida melhor, as pessoas que não tem onde morar.

Na situação de recém imigrante na Inglaterra, onde um mundo de dúvidas e incertezas bate à nossa porta, ouvir estas palavras num ambiente de paz… fez toda a diferença no meu coração.
E que seja feita a vontade de Deus. E que o Senhor proteja os estrangeiros.

Eu, que não sou uma mãe normal

Como toda mãe normal eu acompanho alguns blogs e matérias sobre maternidade e parenting. E hoje em especial eu li um post que me levou a outro, que me levou a outro e que me levou a concluir que… Eu não sou uma mãe normal.

Já reparei que muitas das mães que falam sobre os suas experiências e desabafos maternais começam dizendo algo do gênero “sempre quis ser mãe de menina” ou “sempre soube que seria mãe de menino”.

Eu não sou uma mãe normal. Nunca sonhei em ter filhos, muito menos em específico menino ou menina ou um casalzinho e muito menos ainda sonhei em ter gêmeos ( apesar de que quem deseja ter gêmeos não deve ser uma pessoa muito normal). Hoje tenho o que todo mundo acha normal: um menino e uma menina. E quando eu dizia que ia ser legal que o segundo fosse outro menino eu ouvia “ahhhhhhh não! Agora tem que ser uma menina!!”. E quando eu perguntava o por quê a resposta era: porque sim, oras!  Continue a ler Eu, que não sou uma mãe normal

Vai morar em Lisboa e não sabe por onde começar?

Em primeiro lugar, comece pela parte burocrática: documentação que lhe permita trabalhar, ter acesso a saúde e educação.

Depois desse pequeno detalhe resolvido, você precisa identificar os seguintes pontos:

  • Quando
  • Onde
  • Quanto

Quando mudar?
Depende da sua realidade. Tem filhos em idade escolar? A partir dos 5 anos de idade, completos no ano que se inicia o ano letivo, a escolaridade é obrigatória.  As escolas estão divididas em 3 “etapas”: EB I, EB II e Secundário. Considere que o ano letivo no hemisfério norte começa depois das férias de verão, ou seja, em Setembro. Mas pra inscrever o seu filho numa escola pública deve fazê-lo entre março e abril do respectivo ano de calendário, conforme regra da escola. Continue a ler Vai morar em Lisboa e não sabe por onde começar?

Por que Manchester?

Quando decidimos sair de Lisboa e começar tudo de novo nas terras da Rainha as pessoas nos perguntavam o porque de não irmos para Londres.

Essa é fácil de responder! Já viram o preço de um aluguel na capital? Nem nos arredores a coisa melhora. Por exemplo:

Zoopla, 16/05/2015 To rent, in Luton
Zoopla, 16/05/2015
To rent, in Luton
Zoopla, 16/08/2015 To rent, in London
Zoopla, 16/08/2015
To rent, in London

Lembrando que Kensington é no centro de Londres, mas não tão perto de Westminster ou Waterloo. É uma zona excelente, portanto, está até barato este imóvel. Luton é onde fica um dos aeroportos londrinos, mas fica a uma hora de distância, de carro.

Bem, depois de respondido o motivo de não irmos para Londres (que foi bem aceite e até pensaram “eles não estão tão malucos assim”), vinha a pergunta: Por que Manchester?

Veja bem, eu AMO Londres e é a cidade mais perfeita do mundo, na minha opinião. Mas isso não quer dizer que seja a melhor cidade para viver.

É a segunda maior cidade (apesar de haver controvérsias entre os britons sobre isso) e está em pleno desenvolvimento. Mas em vez de ser eu a dizer o porquê, vou traduzir um texto publicado em 14/08/2015, na seção Travel do Telegraph, em que um Mancunian (gentílico de Manchester) explica porque Manchester é melhor que Londres.

O ponto de vista do autor aborda a cidade em todos os aspectos: moradia e turismo.
Então, se você tem alguma curiosidade sobre a vida Manc, vale a pena a leitura.

Confira o texto original aqui.

Porque Manchester é melhor que Londres
por Alain Tolhurst

Pegando o ônibus 42 pela Curry Mile que se vira a Oxford Road, a cúpula da recém reformada (ao custo de 170 milhõe de libras) Biblioteca Central iminente a diante, me faz lembrar porque Manchester sempre vai ser minha casa – embora eu tenha deixado o Norte há 3 anos e fui viver em Londres.

São as pessoas. Nas ruas a seguir, é o inimitável orgulho emproado que separa os Mancunians. Sabemos que Manchester é excelente, mas não tentamos transformá-la nisso, apenas aconteceu. Existe uma confiança despreocupada nas pessoas da cidade, um contraste evidente do eforço descomunal e envaidecido de Londres em constantemente ser superlativa.

Não somos condescendentes como a capital – não temos pena e auxiliamos aqueles que vêm dos condados por desaguarem nas nossas margens como os londrinos fazem, nós abraçamos os nossos condados.

E é essa mistura de simpatia e conforto irrevogável em nós mesmos que nos torna tão pé no chão e capaz de conversar com qualquer pessoa que encontremos, fazer uma piada e zombar a nossa própria língua – e exatamente isso que faz este lugar tão divertido.

Acrescento a isso o aluguel do meu apartamento de um quarto a norte de Londres que paga uma casa de 3 quartos aqui em cima – com a imensurável beleza do Lake District a apenas uma hora dali. Mas existe muito mais apelo em Manchester do que seus residentes e residências – e começa com a fundação da primeira cidade moderna do mundo, que Benjamin Disraeli definiu como “um grande feito da humanidade como Atenas”.

Porque Manchester não foi apenas o berço da Revolução Industrial. Desde que construímos o Ship Canal perto de 1890, ignorando as necessidades dos nossos velhos amigos de Merseyside e seus altos impostos sobre em negócios, a cidade sempre esteve às voltas do comércio, e o espírito empreendedor ainda é visível hoje.

Berço da primeira estação de trem para passageiros, a primeira biblioteca pública, primeira reunião do congresso da Trade Union, e berço do vegetarianismo moderno e o movimento cooperativista. 

É também onde começou o direito do voto feminino, onde Rutherford dividiu o átomo, onde Turing construiu o primeiro computador, onde as ligas de futebol foram fundadas, onde Rolls encontrou Royce, Marx encontrou Engels.

E mais recentemente: os irmãos Gallagher, a Haçienda, o pé esquerdo de Ryan Giggs, e eu poderia continuar a elencar o dia inteiro. Mas a verdade é que Manchester não é só história – tem grandes planos para o futuro, maiores que os de Londres.

Quando a indústria da região entrou em colapso, Manchester começou a se reinventar tornando-se uma cidade próspera em cultura e esporte – nem mesmo a bomba que o IRA arrebentou seu coração em 1996 o seu progresso foi interrompido. E continua até os dias de hoje com ou sem a promessa do George Osbourne de ajudar a criar uma “potência do norte”.

Pegue como exemplo o Free Trade Hall – construído no lugar do massacre de Peterloo de 1819, em comemoração da Corn Laws que foi revogada, foi bombardeada durante a Manchester Blitz. Reconstruída como uma central de eventos musicais, foi lá que um Manc chamou Bob Dylan de “judas” em 1966, e uma década depois foi palco do show do Sex Pistols que mudou o mundo, inspirando os homens que viriam a fundar o The Smiths, Joy Division e o The Fall. É hoje um hotel considerado como Grau II.

No geral, não se pode dizer que Manchester é uma cidade bonita, mas tem um estiilo e um entusiasmo mantido ao longo da sua transformação, com suas fábricas Vitorianas, bares ao lado do canal na Gay Village e o monumento de vidro como a Beetham Tower, existindo confortavelmente lado a lado.

Uma vez que o calcanhar de Aquiles da cidade – a escasses de restaurantes finos – não é mais um problema, já que recebeu top chefs como Simon Rogan, que está abrindo seu premiado restaurante (Rogan’s The French fecha este mês para reforma e expansão).

E culturalmente, a bienal Manchester Arts Festival corresponde a qualquer coisa no Reino Unido, e em seguida há inúmeras galerias, grandes e pequenas, museus da guerra, ciência, futebol, luta de classes, transportes e o LS Lowry, que abriga teatros e espetáculos musicais como o Bridgewater Hall e o projeto Out House, que é um projeto de arte de rua em constante evolução no lado norte da cidade.

Não há armadilhas para turistas aqui ou edifícios em ruínas preservados em formol – é uma cidade que está viva, evoluindo organicamente. 

Eu sei porque já vi eu mesmo caminhar pela extensão de Manchester várias vezes. Uma cidade que tem de tudo (exceto praia como Ian Brown notoriamente já observou), mas ainda assim pode ser facilmente percorrida a pé e cheio de felicidade. 

E não se preocupe em ficar encharcado se vier experimentar por você mesmo, porque quase nunca chove.

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