O dia mais triste da minha vida

Terça-feira, 26 de maio de 2009.

São 9:20 da manhã, do lado de cá do oceano. Acordei com um pesadelo – que não lembro –  e não consegui voltar a dormir.
Acordei relativamente cedo, porque com a minha rotina de dormir às 5 da manhã normalmente acordo entre as 14 e as 16 horas.

Levantei, fui para a sala, liguei a TV e coloquei nas séries de TV mais chatas, pra tentar pegar no sono de novo. Nada.
Liguei o computador e entrei no site do meu mais novo vício: Travian. Precisava atualizar minhas aldeias (eu jogo em dois servidores).
Além do Travian também tenho uma castelo no GuerraKhan.

Meu irmão que me “iniciou” nesse vício. E tem me ensinado a jogar.
Quem joga sabe que existe um correio interno no servidor, onde podemos mandar e receber mensagens de outros jogadores. Tinha uma mensagem em cada um dos servidores, além do GuerraKhan.
Eram todas do meu irmão. Ele queria falar comigo urgente.

Já eram umas 16h aqui em Lisboa, e como eu queria dar uma voltinha, caminhar pelo Tejo, simplesmente não respondi.
Acessei meu e-mail, porque… vai que surge alguma oportunidade de emprego? Não custava nada perder 15 minutos mandando um CV para mais umas 5 ou 6 oportunidades.

Abri meu Windows Live Mail e tinha um e-mail da minha mãe com o assunto “urgente”, em letras maiúsculas. Gelei.
A mensagem dizia:

“Tenho uma notícia muito triste.  Ligue para o seu pai ele está em casa ou ligue para o meu celular. Daqui do trabalho não consigo ligar.
Foi com o seu filho.”

Liguei pra minha mãe pelo Skype e o dia 26/05/2009 passou a ser o dia mais triste da minha vida. Meu filho, meu bebê, meu companheiro, a vida que eu me tornei responsável em 24/12/1997. Foi meu presente de Natal. O melhor de todos.
Meu yorkshire, o Brandon, morreu aos 11 anos de idade, por volta das 5:20 da manhã.

Há duas semanas meu pai percebeu que o olho esquerdo dele estava inchado, e com muito pus.
Eu lembro que de vez em quando aparecia pus sobre os olhos dele, então eu limpava com soro fisiológico e pingava duas gotas de Biamotil (um colírio). Acho que isso acontecia já há uns dois anos. Antes de vir para Portugal eu deixei por escrito, preso à geladeira, orientações completas sobre como cuidar dos meus filhos (comida, troca de água, vermífugo, limpeza, banho, tosa, medicações, etc).
brandinhoMe refiro a eles como filhos e é assim que os considero. Já fui julgada, ofendida, diminuída e etc, por usar o termo “filho” para um animal de estimação. Já me acusaram de comparar o filho de uma colega de trabalho com um cachorro, por colocar fotos dos meus cães na “paredinha” da minha mesa de trabalho. Foi isso o que eu fiz. Então essa colega me perguntou: “ah, você gosta de cães?” e eu respondi amigavelmente “eu amo! são meus filhos”. Daí ela disse “você então está querendo dizer que os meus filhos são cães?”
E começou a discussão. Não parti para a ignorância, nem a ofendi, mas deixei claro o meu ponto de vista: eu os crio como filhos (mimo, dou comida na boca, dou presentes, pego no colo, brinco, converso, dou banho, dormiam comigo na cama – até eu casar – comprava roupinha, etc), e quando eu tiver filhos não deixarei de amá-los como tal. A diferença é que são meus cães e os trato com todo o amor do mundo e quando eu puser uma criança no mundo, será a criança mais amada do planeta. E isso não tem nada a ver com o fato de chamar meus cães de “filhos”.

Voltando ao olho do meu filho… Meu pai levou o Brandon na vet que cuida dele desde os 2 meses de vida, e ela recomendou uma cirurgia para a remoção do olho. Tratava-se de uma bactéria (não sei qual) que consumia o tecido ocular e poderia passar para o outro olho e chegar até o cérebro. Para a cirurgia era necessário acabar com a inflamação (pus). A cirurgia foi marcada para domingo, dia 31/05/09.
Desde então a medicação tem sido dada ao Brandon, tem sido feita a higiene e curativo diário no olho afetado, e ele começou a apresentar melhoras.
Mas algumas coisas acontecem e não sabemos porquê.
Por algum motivo Deus não quis que ele continuasse a encantar a todos com seu jeito dengoso de deitar aos nossos pés e pedir carinho, e a irritar a todos com seu latido matinal, nem com seu uivo vespertino, quando bate o sino das 18h.
Meu pai ligou para a vet do Brandon e disse-lhe que no domingo ele estava a tossir e a espirrar, como se estivesse resfriado/constipado. A dra. disse que isso é uma caracterísca que antecede alguns ataques cardíacos em cães pequenos.
Isso quer dizer que meu filho, que não tinha nenhum histórico de doença (a não ser uma indisposição hepática antes de completar 1 ano de idade), tinha todos os dentes, não era obeso, se alimentava com Science Diet, corria pelo quintal diariamente durante muitas horas (um quintal de 500m² dispensa as caminhadas na rua), morreu de um uma falha cardíaca aos 11 anos? A expectativa de vida dele era de 17 anos.

Não sei realmente se foi isso, ou se ele apenas desistiu de me esperar.
Como eu disse antes, ele era meu filho, e ele me tinha como o ser vivo em que podia confiar plenamente.
Eu tenho a certeza que ele me esperava. Há 6 meses ele tem a expectativa de me ver entrar pela sala, chamá-lo, dizer “fio toin”, pegá-lo no colo e dar a ele toda a sensação de segurança e proteção que ele teve por 11 anos.

Me culpo pela morte dele. Mas não me arrependo de ter vindo para Portugal. Apenas me arrependo de não ter trazido ele junto comigo. Ele estava com meus pais, na casa que ele cresceu, que ele está acostumado desde sempre, com todos os outros cachorros que ele convive desde sempre. Na época eu decidi o que seria melhor pra ele. Ignorei a minha necessidade de tê-lo perto e pensei no sofrimento que ele passaria em fazer uma mudança tão radical.
Mas eu não podia adivinhar. Se eu trouxesse ele comigo, se eu soubesse e se estivesse realmente predestinado para ele morrer no dia 26/05/09, os últimos 6 meses seriam os mais felizes da vida dele.

Então eu deixo meu apelo àqueles que pretendem ter um animal de estimação: pensem que é uma vida que tem ali naquele ser pequeno, indefeso, e principalmente, pensem que aquela vida também tem a capacidade de amar.

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2 comentários sobre “O dia mais triste da minha vida

  1. Ah! nem.
    Que pena. Você sabe como eu tbm amo meus cães.Mas faz parte. Certamente ele está feliz onde quer que esteja.

  2. Não se culpe pela morte do cãozinho… ele viveu feliz na sua casa, repleto de carinho e cuidados! Se a morte tivesse ocorrido ai em Portugal, certamente tb se sentiria culpada por ter retirado seu filho do ambiente onde cresceu e estava acostumado.
    Concordo quando diz que ele a esperava… mas, não acho que tenha partido por isso. A única certeza que temos da vida é a morte, não é mesmo?
    Pense na vida do seu mascote como uma linda peça de teatro.
    No final as cortinas se fecham… e só restam os aplausos… =)
    Fique bem!

    Em Julho pretendo conhecer Portugal, adorei seu blog!
    Beijo

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