Meu (traumático) parto – Parte I

Já falei aqui sobre a gravidez, sobre a amamentação, e fiquei de falar em algum momento sobre o meu parto.

Esse blog não é sobre maternidade, é sobre a minha vida em terras lusas, e defintivamente, dar à luz uma criança aqui faz parte da minha vida. Vamos ter mais alguns posts sobre isso, mas não mudei o foco do blog, fiquem descansados! 🙂

Até onde eu escrevi, expliquei a minha
condição de gravidez de risco, e que estava sendo acompanhada (seguida) pelo departamento de alto risco da Maternidade Alfredo da Costa, e já tinha decidido ter lá o bebê mesmo antes de ter feito a visita guiada pela maternidade. Lá eles tem todo o meu histórico, todos os meus exames, e muitas pessoas recomendaram a MAC. Para muitos é a referência em maternidade em Portugal.

Há pouco tempo atrás, os hospitais particulares aqui de Portugal não tinham infra-estrutura para lidar com situações complicadas ou de risco no parto, sendo necessário transferir a paciente para a MAC. Hoje não está mais assim, os privados já estão bem evoluídos, mas não sei dizer em detalhes como funciona, porque não conheço ninguém que tenha usado os serviços intensivos de um privado.

Até aí estava tudo muito tranquilo, eu estava decidida e meu marido também, e confortáveis com a nossa decisão.

No dia 01/06/2012, fui para a consulta das 39 semanas e 6 dias. Eu fiquei com pressão alta na gestação, e como completava as 40 semanas no dia seguinte, a médica que me atendeu (Dra. Fátima Palma) decidiu que seria o momento de induzir o meu parto, visto que a gravidez estava a ser prejudicial para a minha saúde, e como eu não tinha contrações, não valeria a pena esperar. Ligou para as urgências, pediu para reservarem uma sala de parto pra mim, falou para eu almoçar pq ia demorar e me desejou uma hora pequenita. A Dra Fatima Palma foi sempre muito atenciosa e competente, e acho que fez muito bem o seu trabalho. Infelizmente, como as coisas funcionam na MAC, foi a última vez que a vi.

Almocei um bife com batata frita, limonada para acompanhar e nada de sobremesa.

Fomos nós para a maternidade: eu, marido e a barriga imensa.

O nervosismo era imenso, eu estava ansiosa é claro, ver a cara do meu bebê, poder pegá-lo no colo, seria um sonho se realizando!
E imaginei que meu parto seria: arrebentar a bolsa, fazer força e pronto! A criança já estaria do lado de fora em apenas 2h no máximo.

Doce ilusão.

Dei entrada nas urgências, e como estavam com algumas urgências mesmo, todas as 11 salas de parto estavam ocupadas. Assim que vagou uma, me mandaram pra lá, chamaram meu marido que ficou do meu ladinho o tempo todo. Pouco tempo depois, chegou a tal médica que fez a minha ultra morfológica (Dra Teresa Martins) e me examinou e colocou um comprimido sei lá do que no meu colo do útero para forçar as contrações. Eram 16h30min e disse que agora era só esperar pois levaria algumas horas pra fazer efeito. Às 18h veio um enfermeiro me ver e eu achei que já tava toda toda. A Dra Teresa Martins veio de novo e eu perguntei (inocentemente) se estava perto, ela disse que tinha pelo menos uns 2cm, e que o prazo pro remédio fazer efeito era até as 22h30min, mas que estava tudo correndo muito bem.

Parênteses rápido: quando eu fiz a morfológica com ela, queria que fosse ela a fazer o meu parto. Foi um desejo solto, pois eu fui atendida por ela numa clínica particular, e a MAC é pública. Pensamento positivo é tudoooo!! Eu nem sabia que ela também trabalhava na MAC.

A Dra Teresa foi embora e depois, de hora em hora vinha um enfermeiro diferente, e depois vinha um outro obstetra diferente. Nunca vi nenhum deles antes desse dia, então não são os que dão consulta de alto risco, e nem mesmo os das urgências.

A dilatação estava acontecendo porque eu comecei a sentir dores… as tais contrações. O tal CTG tava ligadinho na minha barriga desde que entrei lá, e reparei que assim que cheguei o índice das contrações era 12, 16, e às 22h estava em 90-100…

Implorei por um alívio. Pedi anestesia. Esse papo de parto natural, sem anestesia é loucura, dói pra burro com a criança ainda lá dentro, imagine pra sair dali!! Chamaram a anestesista, pediram pro meu marido sair do quarto, ele ficou lá fora na sala de espera. Chegou a anestesista (um amor, diga-se de passagem), me explicou tudo com muita calma, disse o que ia fazer e me deu o termo pra assinar. Eu tinha que estar ciente das consequências da anestesia.

Ela colocou um catéter colado nas minhas costas, assim, quando precisasse de um reforço, era só introduzir a medicação pelo catéter, não precisaria furar minha coluna de novo (achei genial essa ideia).

Pensei eu com meus botões: agora vão romper a bolsa e meu filho nasce antes da meia noite!

Nada…
Assim que me deixaram sozinha no quarto, pedi pra chamar o meu marido de volta. E ele não vinha. A auxiliar de enfermagem disse que ele não estava na sala de espera. Me subiu um troço! Imagina se o nosso filho nasce e ele não tá ali pra ver? Será que ele foi em casa levar a Luka na rua?

Deixei passar uns minutos, as contrações ficaram indolores, mas continuava sentindo tudo o que se mexia, e relaxei e cochilei. O que acontece? A bolsa rompeu sozinha. Foi um tanto de água que saiu, nossa! Não fazia ideia de que seria tanta coisa (primeira gravidez, né?).

Pedi de novo pra chamar meu marido. Já eram mais de onze da noite e eu achei que a bolsa estourava e no máximo em uma hora a criança tava ali. Ingênua, eu sei.

Já eram quase meia noite quando ele chegou. Fiquei mais calma. Mas nada de filho nascer. Lá pra uma da manhã, a dor voltou. Pedi mais anestesia. De hora em hora fui vista por um enfermeiro e um obstetra. Sempre pessoas diferentes. Quando eram 5 da manhã, uma pessoa de jaleco branco que me visitou (não sei se era obstetra ou enfermeira) me disse que não poderia ser assim, toda hora pedir anestesia, porque na hora do parto, eu teria que estar bem participativa e a anestesia poderia atrapalhar.

Suei frio!!!! Como assim não poderia tomar mais anestesia? Não tenho condições de sentir mais dor, tô sentindo dor há quase 10h! Fiquei mega assustada com isso, mas como queria manter o status de brasileira gente boa, não reclamei, nem contestei.

Quando chegou a visita das 6 da manhã, uma nova médica, novinha, muito simpática, me viu, fez o toque, disse que eu estava com quase 9cm de dilatação (portanto, estava com 8cm e alguma coisa). Perguntei se faltava muito, ela disse que não, e que eu já podia fazer força. Perguntei como era isso, e ela disse: “sabe fazer força pra fazer cocó? é a mesma coisa”.
E eu: mas e se sair “cocó”?
Ela: não faz mal, acontece.

Ok.
O detalhe é que eu já estava ali há tanto tempo que a digestão já tinha acontecido, e meu intestino funciona muito bem todos os dias de manhã. Imaginem o que aconteceu…
(um comentário num post anterior meu sobre a páscoa achou desnecessário informar sobre esse tipo de detalhe, mas com todo respeito ao leitor, a informação é necessária sim)

A médica fez um comentário impróprio: “você foi a uma churrascaria antes de vir pra cá? Não sabia que ia ter bebé hoje?”

E eu respondi com muita educação e até num tom submisso: “não, doutora, comi pouco. Mas fui internada às pressas e já estou aqui há mais de 12h.”
Ela ficou calada.

Mandava eu fazer força, e eu fazia e ela escoava o líquido amniótico. Depois de uma hora fazendo força e nada acontecer, ela chamou reforços. Pediu a uma outra médica que lá estava pra analisar. E analisaram, e me tocaram, e me mexeram, e escoaram mais líquido amniótico, e mandavam eu fazer mais força, e gritavam “genica! genica!” (eu não sabia o que era genica e só descobri depois quando já estava na enfermaria), e… nada.

Eis que já eram 7 da manhã e como nada funcionava, mas já viam a cabeça da criança ali no meio do caminho, chamaram uma ajudinha: a ventosa.

Pediram pro meu marido se retirar, e ele que estava sem beber, sem comer e sem dormir, junto comigo, ficou na sala de espera, sozinho, sem ter notícias.

Veio a ventosa, e nada. Eram quase 7:20, e eis que aparece quem? A Dra Teresa Martins. Eu estava desesperada de dor, não aguentava mais aquilo, queria que empurrassem a criança de volta e me mandassem pra casa. Ela me examinou, olhou a minha ficha, e perguntou discretamente pra outra médica que estava com a ventosa: mas quem mandou essa menina fazer força?

Pode ser que esse comentário tendo sido feito na sala onde eu estava, mesmo que discretamente, tenha sido anti-ético da parte dela. Não pra mim. Pra mim foi decisivo: ela sabia o que estava fazendo e sabia que fizeram besteira em me mandar fazer força antes dos 10cm completos.

Além disso, bastava olhar pro meu marido ali do meu lado, e pra minha pessoa, que se chegaria à conclusão que não seria um bebê nada pequeno. Às 30 semanas a cabeça do meu filho já tinha 11cm de diâmetro. Cadê a matemática pra entender que 11cm não passam em quase 9cm, com moleira ou sem moleira. Eles têm todos os registos com eles!! E uma das maiores falhas foi exatamente essa: como eu não tinha uma médica minha, era uma junta médica e cada vez era uma pessoa diferente, não fizeram nenhum outra ultra/ecografia depois das 30 semanas.

Comecei a sangrar, devem ter visto que meu bebê já estava machucado, e a Dra Teresa Martins mandou preparar o bloco operatório, chamar a anestesista e levar um ecógrafo junto, porque estávamos subindo.

Ela me examinou, viu lá as imagens da posição do meu bebê, viu que ele estava alto, mas não tão alto pra fazer uma cesária (e eu perguntei antes: não vamos fazer cesariana não, né? – porque eu já estava há tantas horas naquilo que não queria sofrer tanto duas vezes), e veio uma outra obstetra com o fórceps.

E depois de doses cavalares de anestesia (porque eu gritava como se estivesse sendo torturada, e na verdade, se me perguntassem se fui eu quem cometeu qualquer crime ainda sob investigação, a resposta seria “siiiim!, fui eu, agora tira essa criança daíiiii!!!), me deram oxigênio, eu fiquei doidona (parecia que tinha tomado um porre), fizeram o corte no períneo (e eu senti, porque a anestesia não tinha feito efeito ainda), e pra mim parece que estava ali há umas duas horas, mas foram minutinhos.

Mesmo toda anestesiada e berrando horrores, eu conseguia ouvir alguma coisa em volta. Sei que tinha um rádio ligado (na Mega Hits) e que a minha super médica reclamou que estava com pouco líquido amniótico (claro, a tal que me mandou fazer força escoou tudo o que havia lá dentro, meu filho ficou sem ter como deslizar).

O bebê nasceu às 7:49, com ajuda de fórceps, todo magoado.

Depois do meu escândalo, perguntei se saiu a placenta, disseram-me que sim, que saiu inteira, uma outra médica estava fazendo a episiotomia, e aproveitei e pedi desculpas à anestesista, que me encheu de medicação porque eu gritava tanto e ela achou que eu estava com dores (e fiquei por 3 horas paralisada do pescoço até os pés); pedi desculpas à Dra Teresa Martins, e ela pediu a mim, porque ela gritava comigo porque eu tinha que fazer força, mas eu já estava tão cansada que não conseguia, e só chorava e gritava. Ela falou que não tinha problema, é assim mesmo, e que estava tudo bem, o meu filho era lindo, estava só com um machucadinho ali no olho, e que iria para os cuidados intermédios porque eu não tinha condições de pegar nele.

A sensação que eu fiquei foi que se não fosse ela, eu não teria tido o bebê tão cedo, e ele talvez tivesse sofrido mais injúrias do que as que ficou.

(continua num próximo post…)

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6 comentários sobre “Meu (traumático) parto – Parte I

  1. e uma vergonha o que se passou .mas e assim,estamos em portugal seculo 21.Medicos incompetentes .nao se percebe como chegaram la.
    Quem tem dinheiro safa-se ,vai para o privado.com sorte apanham um medico de jeito….

  2. Nossa, você sofreu muito mesmo. Eu também senti muitas dores. Fiquei das 3h da manhã até às 10h da manhã sentindo contrações. Eram dores que nem consigo explicar. Deram-me um remedinho, mas… parecia que estava me rachando pelo meio. Não tinha dilatação e às 10h da manhã, quando a minha médica particularrrrrrrrrrrrr resolveu chegar, verificou enfim o que já tinha sido constatado, que eu quase não tinha líquido e que a criança estava com os batimentos cardíacos elevadíssimos e não aguentaria nascer de parto normal. Disse, assim como você: “abra logo isso e tire já essa criança daí de dentro!” Tadinha da minha filha… Nasceu roxa e sem chorar. Acho até que ela tava “apagada”. Ela saiu de mim e eu nem percebi. Só veio para os meus braços, depois de lutar contra uma intolerância ao leite artificial (eu não tinha uma gota), uns 4 dias depois. Ficou 10 dias na incubadora. Comia 5ml de leite por vez. Veio para casa, bebia 30ml, com muita glória. Ela é uma heroína e… linda!

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